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A possibilidade de investidores privados adquirirem participação em uma nova estrutura criada para administrar os direitos comerciais da Copa do Mundo colocou a Fifa no centro de um amplo debate internacional. A iniciativa, confirmada pela entidade após a divulgação de informações pela imprensa britânica, provocou manifestações contrárias de confederações, dirigentes e especialistas, que demonstram preocupação com os impactos da medida sobre a governança do futebol mundial.
O projeto prevê a criação da Fifa Forward Enterprise (FFE), empresa estimada em aproximadamente US$ 20 bilhões (cerca de R$ 102 bilhões), responsável pela gestão comercial da Copa do Mundo e de outros eventos organizados pela entidade. A proposta contempla a venda de uma participação minoritária, próxima de 20%, a investidores privados.
Entre os grupos apontados como possíveis interessados está a Thrive Eternal, companhia liderada por Joshua Kushner, empresário norte-americano e irmão de Jared Kushner, genro do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A informação ampliou os questionamentos sobre eventuais conflitos de interesse, especialmente em razão da relação institucional entre o presidente da Fifa, Gianni Infantino, e o governo norte-americano.
Especialistas em gestão esportiva afirmam que o debate ultrapassa a questão financeira. Para Bret Myers, professor de negócios esportivos da Universidade Villanova, a Copa do Mundo ocupa uma posição singular no esporte internacional e sua administração envolve responsabilidades que não podem ser analisadas apenas sob a ótica econômica.
Segundo o pesquisador, modelos semelhantes são comuns em ligas esportivas da América do Norte, onde investidores privados participam regularmente da gestão de franquias e competições. No futebol internacional, entretanto, competições tradicionais ainda são tratadas como patrimônio esportivo e cultural, o que torna qualquer mudança estrutural motivo de forte debate.
Embora a Fifa sustente que o controle da competição permaneceria sob sua responsabilidade, parte dos críticos avalia que a abertura para investidores representa um precedente relevante para futuras transformações na exploração comercial da principal competição do futebol mundial.
Atualmente, a entidade mantém reservas financeiras estimadas em US$ 8 bilhões, resultado impulsionado pelas receitas obtidas nas últimas edições da Copa do Mundo. Mesmo assim, o novo projeto busca captar recursos adicionais por meio da participação de investidores externos.
Como forma de obter apoio das associações nacionais, a Fifa apresentou um programa de distribuição de recursos. Pelo plano, cada uma das 211 federações filiadas poderá receber US$ 20 milhões em 2027, montante que deverá alcançar US$ 24 milhões em 2035, caso a proposta seja aprovada.
As associações têm até 19 de setembro para informar se aderem ao modelo apresentado. Segundo a própria entidade, federações que optarem por não participar poderão deixar de receber esses valores ou sofrer redução nos repasses previstos.
Miguel Maduro, ex-presidente do Comitê de Governança, Auditoria e Conformidade da Fifa, questionou a ausência de mecanismos independentes de fiscalização sobre a aplicação desses recursos. Na avaliação dele, embora o investimento possa representar benefícios ao desenvolvimento do futebol, faltam instrumentos capazes de assegurar transparência, prestação de contas e controle na distribuição do dinheiro.
A reação entre as entidades esportivas foi imediata.
A Confederação Asiática de Futebol (AFC) declarou que não participou das discussões prévias sobre o projeto e manifestou insatisfação com a condução do processo. A Concacaf também demonstrou preocupação com a proposta, enquanto a Confederação Africana de Futebol orientou suas associações nacionais a analisarem detalhadamente o plano antes da tomada de qualquer decisão.
Na Europa, a oposição ganhou força após manifestação da Federação Alemã de Futebol (DFB). O vice-presidente da entidade, Hans-Joachim Watzke, afirmou existir consenso entre diversas associações nacionais de que a proposta representa uma mudança significativa na administração do futebol internacional.
A posição mais contundente partiu da União das Associações Europeias de Futebol (Uefa), que declarou publicamente que o futebol não pertence à Fifa para ser comercializado. A entidade deverá discutir oficialmente o assunto em reunião prevista para os próximos dias.
Até a publicação desta reportagem, nem a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) nem a Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) haviam divulgado posicionamento oficial sobre a proposta.
Especialistas avaliam que o episódio poderá influenciar futuras disputas políticas dentro da Fifa, estimular novas articulações entre confederações continentais e repercutir diretamente na forma como as principais competições internacionais serão administradas nos próximos anos.
Na avaliação de Miguel Maduro, caso o projeto seja implementado, a tendência será de fortalecimento da estratégia comercial da entidade, com investimentos voltados à ampliação do alcance de torneios organizados pela Fifa, incluindo o Mundial de Clubes, em um cenário de crescente concorrência com outras competições internacionais.
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