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Primeiro vem o Dia das Mães. Depois, o Dia dos Pais. O comércio agradece, as vitrines mudam, as propagandas se multiplicam e as redes sociais se enchem de fotografias, declarações e homenagens. São datas que movimentam milhões e que, ao longo dos anos, foram incorporadas à cultura e também à lógica do consumo. Mas existe uma questão que merece ser feita: se mãe e pai são tão importantes, por que precisamos de uma data comercial para lembrar que eles existem?
Dia das Mães e Dia dos Pais são datas do calendário. Ser filho, porém, não é. Mãe e pai deveriam ser lembrados, respeitados e, quando houver amor e possibilidade, honrados todos os dias. Não apenas quando o comércio anuncia uma promoção, quando a publicidade sugere o presente ideal ou quando as redes sociais esperam uma fotografia acompanhada de algumas palavras bonitas.
Privilégio mesmo é ter pai e mãe vivos.
E falar de pai e mãe também significa abandonar algumas narrativas fáceis. Muito se fala sobre o pai que abandona, renega o filho, desaparece ou se recusa a assumir responsabilidades. E isso, infelizmente, acontece. Há filhos que crescem esperando uma ligação que nunca chega, uma visita que nunca acontece ou uma demonstração de afeto que jamais veio.
Mas existe uma verdade que também precisa ser dita — e talvez seja justamente essa a parte que incomoda: mãe também abandona. Mãe também rejeita. Mãe também renega.
O abandono não tem gênero.
Existem pais ausentes e mães ausentes. Pais que negligenciam e mães que negligenciam. Pais que ferem e mães que ferem. Da mesma maneira, existem pais que enfrentam todas as dificuldades pelos filhos e mães que fazem o mesmo. Não se trata de diminuir a importância da maternidade. Trata-se de reconhecer que ser mãe ou ser pai não transforma automaticamente ninguém em uma pessoa perfeita.
A maternidade e a paternidade deveriam representar responsabilidade, cuidado, presença e vínculo. Mas a realidade das famílias é muito mais complexa do que as imagens perfeitas produzidas pelas campanhas publicitárias.
Há pais que amam profundamente, mas nunca aprenderam a demonstrar. Há mães que fizeram do cuidado uma forma diária de amor. Há pais que acreditam que sustentar financeiramente um filho é suficiente. Há mães que, por diferentes circunstâncias, não conseguiram exercer o papel que se esperava delas.
E há filhos carregando, por toda a vida, as consequências dessas relações.
Na perspectiva da psicanálise, a experiência de sentir-se amado e reconhecido durante a infância pode contribuir para a construção de uma sensação de segurança diante do mundo. A relação com os pais deixa marcas que não desaparecem simplesmente porque o filho cresceu.
Um filho pode ter 20, 30, 50 ou 70 anos.
Continua sendo filho.
A presença de um pai muda com o tempo. A presença de uma mãe também. O adulto já não precisa dos mesmos cuidados de quando era criança, mas isso não significa que os vínculos tenham perdido importância. Existe uma diferença enorme entre não depender mais dos pais e não precisar mais do amor, da presença e da referência que eles representam na própria história.
Também é preciso reconhecer que nem todos terão uma fotografia feliz para publicar no Dia dos Pais. Para algumas pessoas, a data representa saudade. Para outras, representa ausência, abandono ou lembranças dolorosas. Há quem tenha perdido o pai ou a mãe. Há quem tenha sido rejeitado. Há quem tenha precisado se afastar de um familiar para preservar a própria vida e seus limites.
Honrar pai e mãe não significa aceitar abusos.
Respeitar não significa permanecer em uma relação que causa sofrimento. E reconhecer a importância da família não significa negar as feridas que existem dentro dela.
Mas, para aqueles que ainda têm pai e mãe vivos e com quem existe uma relação possível, talvez seja hora de perguntar: por que esperar uma data para dizer aquilo que pode ser dito hoje? Por que esperar o segundo domingo de agosto para visitar, telefonar, ouvir ou simplesmente estar presente?
Pais envelhecem. Mães envelhecem. Filhos também envelhecem. O tempo passa silenciosamente e, muitas vezes, só percebemos seu valor quando já não é possível voltar atrás. Um dia pode não existir mais telefone para atender, porta para abrir ou abraço para dar.
O comércio continuará criando datas. As vitrines continuarão anunciando presentes. A publicidade continuará transformando sentimentos em campanhas. Mas amor não deveria obedecer ao calendário.
Dia das Mães e Dia dos Pais acontecem uma vez por ano. Ser filho acontece todos os dias.
E talvez esse seja o verdadeiro sentido da data: não apenas comprar um presente, publicar uma fotografia ou cumprir uma tradição, mas lembrar que, quando existe amor, respeito e possibilidade de convivência, o maior privilégio não está naquilo que se pode comprar.
Privilégio mesmo é ainda ter pai e mãe vivos para abraçar.
Por KAROLLINNI
Jornalista e Psicanalista
Instagram: @karollinni
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