O Dia dos Avós nos convida a interromper a velocidade frenética dos dias para escutar o que o tempo guarda de mais precioso: a raiz da nossa própria história. Na clínica psicanalítica, sabemos que ninguém se torna sujeito no vazio. Nós nos constituímos a partir das palavras que nos antecedem, dos nomes que nos dão e das histórias que nos contam antes mesmo de aprendermos a falar. Nesse entrelaçamento familiar, a figura dos avós ocupa um lugar de majestosa poesia e profunda importância estruturante, funcionando como a ponte viva entre o passado e o futuro, garantindo que o sujeito não se sinta solto no mundo.

Há, no território dos avós, uma escuta muito particular, desprovida da pressa e da urgência cotidiana que costumam marcar a função parental. Enquanto os pais carregam sobre os ombros o peso da interdição, da educação e da inserção da criança na realidade, os avós habitam uma posição de acolhimento singular. Para a criança, o colo dos avós é o lugar onde o desejo de ser amado não exige performatividade ou perfeição; é o espaço onde a imaginação ganha corpo e a angústia do desamparo encontra apaziguamento. Ao mesmo tempo, para quem envelhece, o olhar encantado de um neto opera como uma verdadeira renovação narcísica, oferecendo a certeza de que a vida continua a germinar e que o próprio desejo permanece vivo na geração que chega.

Essa aliança ganha contornos de nobreza quando a vida exige que os avós assumam o papel principal na criação direta dos netos. Nesses lares, o afeto se desdobra em ato contínuo de proteção e renúncia, sustentando a função paterna ou materna com a sabedoria de quem já conhece as curvas do tempo. No entanto, a própria psicanálise nos alerta para as armadilhas do excesso. Quando o zelo se transforma em uma superproteção que tudo concede e nada nega, o amor corre o risco de sufocar. O ato de educar exige o contraponto do limite, pois é a frustração, dosada, que ensina a criança a lidar com a falta, a autonomia e a realidade. O grande desafio dessa relação é manter o mimo como refúgio, sem permitir que ele impeça o sujeito de caminhar sobre as próprias pernas.

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É por acreditar que o amor verdadeiro se escreve na carne e na história de pessoas de carne e osso que faço questão de integrar a esta matéria uma galeria viva, com fotos enviadas por leitores reais do Jornal Nova Geração. Seria infinitamente mais simples recorrer à perfeição fria e genérica de imagens criadas por inteligência artificial, mas a psicanálise nos ensina que a beleza do ser humano reside justamente nas marcas do tempo, na singularidade de um sorriso e na verdade dos laços genuínos. Afinal, a vida, o afeto e a dor não são virtuais; são profundamente reais.

Celebrar este dia é reverenciar quem nos acolheu na palavra e na vida, guardando no peito a certeza indelével de que somos fruto do amor incondicional daqueles que vieram antes de nós. ( Por Karollinni - Psicanalista/Jornalista)


INSTAGRAM: @KAROLLINNI

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FONTE/CRÉDITOS: Karollinni – Psicanalista/Jornalista