Nunca estivemos tão próximos de tudo — e, talvez, tão distantes de nós mesmos. A informação chega antes que tenhamos tempo de procurá-la. Uma notificação interrompe um pensamento, uma mensagem exige resposta, uma notícia substitui outra, e o silêncio, que antes fazia parte da rotina, parece ter se tornado um espaço que precisa ser imediatamente preenchido.

Vivemos em uma espécie de disponibilidade permanente. Há sempre algo para ler, assistir, responder, comentar ou acompanhar. A sensação de que é preciso estar atualizado, acessível e produtivo pode transformar o cotidiano em uma sucessão de pequenas urgências. E, quando tudo parece urgente, até o descanso pode carregar a sensação de culpa.

Mas talvez a questão mais profunda não esteja na quantidade de informações que recebemos, e sim no que fazemos com o vazio que aparece quando elas cessam.

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O ser humano não é feito apenas de respostas. Há pensamentos que precisam de tempo, desejos que não se revelam imediatamente e perguntas que não encontram solução em uma busca rápida na internet. Algumas experiências precisam permanecer abertas por algum tempo antes de adquirir significado.

O excesso de estímulos pode dificultar justamente esse intervalo. Quando uma tela é imediatamente acionada diante do tédio, da espera ou do silêncio, perdemos a oportunidade de descobrir o que esses momentos poderiam nos dizer.

Não se trata de transformar a tecnologia em vilã. Ela faz parte da vida contemporânea e oferece possibilidades que seriam impensáveis em outras épocas. O ponto está na relação que estabelecemos com aquilo que nos cerca. A tecnologia pode ser uma ferramenta a nosso serviço ou pode, silenciosamente, começar a determinar onde colocamos nossa atenção.

Há ainda uma outra dimensão: a autocobrança.

As telas nos colocam diante de uma sucessão de vidas aparentemente realizadas. Pessoas que viajam, trabalham, empreendem, estudam, cuidam do corpo, constroem relacionamentos e parecem estar sempre avançando. Mesmo sabendo que aquilo que vemos é apenas um recorte, a comparação pode produzir uma sensação persistente de insuficiência.

Então surge uma pergunta incômoda: estamos tentando realizar nossos desejos ou tentando alcançar aquilo que acreditamos que deveríamos desejar?

Essa diferença é fundamental. Existe uma distância entre viver a partir de uma escolha e viver tentando corresponder a expectativas. Quando a necessidade de aprovação ocupa espaço demais, o sujeito pode se afastar pouco a pouco daquilo que realmente o mobiliza.

Talvez seja por isso que o silêncio incomode tanto. Ele não oferece respostas prontas. Não apresenta uma nova imagem para admirar, uma opinião para seguir ou uma tarefa para cumprir. O silêncio nos coloca diante de nós mesmos.

E estar diante de si nem sempre é confortável.

Há momentos em que o excesso de informação funciona como uma espécie de preenchimento contínuo. Não porque toda pessoa que utiliza intensamente a tecnologia esteja necessariamente fugindo de alguma coisa, mas porque permanecer permanentemente ocupado pode tornar mais difícil perceber aquilo que aparece quando finalmente paramos.

Desconectar-se, portanto, pode ser mais profundo do que simplesmente desligar o telefone. Pode significar recuperar a capacidade de não responder imediatamente. De não acompanhar tudo. De permitir que uma pergunta permaneça sem resposta. De suportar alguns minutos de silêncio sem a necessidade de preenchê-los.

Talvez precisemos reaprender que nem todo intervalo é vazio e que nem toda pausa representa perda de tempo.

Existe uma dimensão da vida que não pode ser acelerada. O pensamento precisa de tempo. O desejo também. E algumas das respostas que procuramos com tanta insistência não estão escondidas em mais uma informação, mas justamente no espaço que surge quando deixamos de procurá-las por alguns instantes.

Em uma época que nos convida permanentemente a olhar para fora, talvez seja necessário recuperar a coragem de olhar para dentro.

Não para abandonar o mundo, mas para voltar a habitá-lo com mais presença.

Às vezes, desconectar-se não é fugir da realidade.

É criar silêncio suficiente para finalmente escutar o que, dentro de nós, há muito tempo tenta falar.


Por KAROLLINNI 
Jornalista e Psicanalista
Instagram: @karollinni

JORNAL NOVA GERAÇÃO
"A VERDADE DOS FATOS"

FONTE/CRÉDITOS: KAROLLINNI - PSICANALISTA/JORNALISTA - JORNAL NOVA GERAÇÃO