Brasil e Índia deram mais um passo para aprofundar a relação comercial entre os dois países e ampliar o alcance do acordo de preferências tarifárias mantido pelo Mercosul com o mercado indiano. As tratativas ganharam novo impulso nesta semana, em Brasília, durante encontros que reuniram autoridades dos dois governos e representantes do setor empresarial.

O secretário de Comércio da Índia, Rajesh Agrawal, reuniu-se na sexta-feira (28) com a secretária de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Tatiana Prazeres. A agenda ocorre na sequência de uma série de reuniões destinadas a aproximar os setores produtivos dos dois países.

A ampliação do acordo é considerada estratégica diante do crescimento do intercâmbio comercial. Segundo o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, a corrente de comércio entre Brasil e Índia já supera US$ 15 bilhões e está cerca de 20% acima do registrado um ano antes. A meta estabelecida pelos dois países é alcançar US$ 30 bilhões até 2030.

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Acordo atual ainda possui alcance limitado

O entendimento comercial entre Mercosul e Índia não é recente. O Acordo de Comércio Preferencial foi assinado em 2004 e entrou em vigor em 2009, estabelecendo reduções tarifárias para determinados produtos.

Apesar de representar uma porta de entrada para o comércio entre as duas regiões, o mecanismo ainda possui cobertura considerada restrita diante do potencial das duas economias. Atualmente, o acordo contempla aproximadamente 450 linhas tarifárias, enquanto Brasil e Índia avaliam a possibilidade de ampliar significativamente o número de produtos beneficiados.

A expansão interessa particularmente ao Brasil porque pode reduzir barreiras que hoje dificultam a entrada de determinados produtos no mercado indiano.

No agronegócio, por exemplo, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) aponta oportunidades para produtos como carne de frango, milho e café. A entidade defende a ampliação do acordo como forma de melhorar as condições de acesso dos produtos brasileiros a um dos maiores mercados consumidores do mundo.

Empresas também entram na aproximação

A negociação comercial vem acompanhada de uma tentativa de aproximar diretamente empresas brasileiras e indianas.

A ApexBrasil e a Confederação das Indústrias Indianas assinaram um memorando de entendimento voltado ao intercâmbio de informações, à promoção de feiras, ao compartilhamento de experiências e ao estímulo à internacionalização de pequenas e médias empresas.

O documento também pretende criar condições para novos projetos de investimento e facilitar a identificação de oportunidades de negócios entre os dois mercados. A meta anunciada para o comércio bilateral é chegar a US$ 20 bilhões até 2030 dentro dessa frente de aproximação empresarial.

Os dados mais recentes ajudam a dimensionar a relação. Em 2025, o comércio entre Brasil e Índia alcançou US$ 15,2 bilhões, resultado de aproximadamente US$ 6,9 bilhões em exportações brasileiras e US$ 8,4 bilhões em importações. No período recente, a corrente comercial cresceu 82%.

Agronegócio está entre os setores com maior potencial

A ampliação do acordo desperta especial interesse entre setores que buscam conquistar espaço no mercado indiano.

Segundo a CNA, as exportações brasileiras ainda enfrentam barreiras tarifárias relevantes. A carne de frango, por exemplo, está sujeita a tarifas de até 100% na Índia, enquanto o milho enfrenta tarifa média de 50%. Produtos como café solúvel e cafés especiais também encontram alíquotas elevadas.

A redução dessas barreiras poderia ampliar a competitividade dos produtos brasileiros e, ao mesmo tempo, diversificar os destinos das exportações nacionais.

Além do agronegócio, os governos identificam possibilidades de cooperação em áreas como fertilizantes, indústria farmacêutica, bioenergia, biocombustíveis e dispositivos médicos. Os dois países também incluíram os minerais críticos entre os setores de interesse estratégico.

Brasil busca diversificar parceiros comerciais

A aproximação com a Índia ocorre em um momento de mudanças no cenário do comércio internacional, no qual o governo brasileiro procura ampliar o número de mercados disponíveis para suas empresas e reduzir a dependência de determinados destinos.

A estratégia ganhou relevância diante das novas barreiras comerciais impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros. Paralelamente à aproximação com a Índia, o governo mantém aberta a possibilidade de negociação com Washington sobre as tarifas aplicadas às exportações brasileiras.

Nesse contexto, a Índia aparece como um mercado de grande dimensão e ainda com espaço considerável para a expansão das empresas brasileiras.

A intenção, porém, vai além do aumento imediato das exportações. A ampliação do acordo pretende estabelecer condições comerciais mais favoráveis, incorporar novos produtos ao regime preferencial e criar oportunidades para investimentos e parcerias produtivas.

Se as negociações avançarem, o Mercosul e a Índia poderão transformar um acordo atualmente restrito em uma plataforma mais abrangente de integração econômica, aproximando dois mercados de grande escala e abrindo novas possibilidades para a indústria, o agronegócio e outros segmentos da economia brasileira.

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