O caso envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes ganhou novos contornos nesta terça-feira (1º), após a retirada do sigilo de documentos produzidos pela Polícia Federal e a divulgação de mensagens encontradas no celular do empresário. Os registros apontam uma relação de proximidade entre Vorcaro e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), inclusive nos dias que antecederam a prisão do banqueiro, em novembro de 2025.

Os novos elementos foram encaminhados ao ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo. Após analisar o material, Mendonça determinou a retirada do sigilo e indicou que a questão deverá ser submetida ao plenário da Corte, em sessão presencial. A definição da data caberá ao presidente do STF, Edson Fachin.

A documentação reúne mensagens atribuídas a Vorcaro e destinadas a um contato identificado pelos investigadores como sendo o ministro Alexandre de Moraes. Como parte das conversas foi enviada por meio de imagens e mensagens de visualização única, a perícia trabalhou também com registros deixados no aparelho celular para reconstruir a sequência das comunicações.

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Contatos se estenderam por meses

Os documentos não apontam apenas para contatos mantidos nos dias imediatamente anteriores à prisão de Vorcaro.

Mensagens analisadas pela Polícia Federal indicam que os dois mantiveram contato ao longo de 2024 e 2025 e que houve sucessivas tentativas de encontros presenciais. Em parte dos registros, o próprio Vorcaro comunicava a terceiros que estaria com Moraes ou combinava horários e locais para reuniões.

A Polícia Federal identificou indícios de pelo menos seis encontros entre os dois ministros — informação que, por se basear em elementos indiretos e registros encontrados no telefone de Vorcaro, é apresentada como indicativo de reuniões, e não como comprovação independente de cada encontro.

O ex-ministro das Comunicações Fábio Faria também aparece nos registros como uma das pessoas que ajudaram a aproximar Vorcaro e Moraes. As mensagens apontam para encontros realizados desde o fim de 2023 e início de 2024. Faria não é investigado no caso.

Conversas às vésperas da prisão

A parte mais sensível do material diz respeito aos contatos mantidos em novembro de 2025.

Mensagens encontradas no celular de Vorcaro indicam que ele procurou Moraes em diferentes ocasiões para marcar encontros. Em 14 de novembro, três dias antes de ser preso, o banqueiro teria se encontrado com o ministro.

Depois do encontro, Vorcaro enviou uma mensagem de agradecimento na qual declarou ter uma profunda dívida de gratidão com Moraes e sua família. O relatório, contudo, não esclarece o conteúdo da conversa realizada presencialmente.

Dois dias depois, em 16 de novembro, houve nova tentativa de encontro. Vorcaro informou que estava em um voo e que, após o pouso, seguiria diretamente para falar com Moraes.

No dia seguinte, 17 de novembro, o empresário foi preso pela Polícia Federal no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, quando se preparava para embarcar em um jato particular.

Banqueiro perguntou se deveria deixar o país

Entre as mensagens reveladas está ainda uma conversa na qual Vorcaro consultou Moraes sobre a possibilidade de deixar o Brasil diante do avanço das investigações.

Em uma das mensagens, o banqueiro perguntou se deveria estar fora do país na segunda-feira. A comunicação ocorreu pouco antes de sua prisão.

A Polícia Federal interpretou a viagem como possível tentativa de fuga. Vorcaro, à época, sustentou que pretendia viajar para tratar de negociações envolvendo a venda do Banco Master a investidores estrangeiros.

O conteúdo das mensagens, entretanto, não permite afirmar, isoladamente, qual teria sido a resposta de Moraes ou se eventual orientação do ministro teve relação com a prisão posterior.

Pedidos envolvendo PF e PGR

Outro conjunto de mensagens elevou a relevância institucional do episódio.

Em determinado momento, Vorcaro fez referência a “Andrei” e “Paulo” e pediu que fossem tomadas providências para evitar que pessoas subordinadas a essas autoridades adotassem medidas que pudessem prejudicá-lo.

Os investigadores associaram os nomes ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet. A partir desse elemento, Mendonça solicitou esclarecimentos à PGR sobre o contexto da comunicação e suas possíveis implicações.

A documentação também registra pedidos de Vorcaro relacionados a autoridades do sistema financeiro. Entre eles, há referência à tentativa de aproximação com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo.

Até o momento, não há confirmação pública de que os pedidos feitos pelo banqueiro tenham resultado em qualquer intervenção efetiva das autoridades mencionadas.

Relação comercial também aparece nos documentos

Os novos elementos trazidos pela Polícia Federal também incluem informações sobre uma relação profissional entre o Banco Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes.

O material menciona um contrato de aproximadamente R$ 131 milhões. Segundo informações divulgadas nesta terça-feira, registros indicariam que o próprio ministro teria feito alterações no documento antes de sua assinatura. O escritório informou, em manifestação divulgada pela imprensa, que buscava esclarecer questões relacionadas a possíveis impedimentos legais.

A existência de uma relação comercial, por si só, não comprova irregularidade. Eventuais implicações jurídicas ou institucionais dependem da análise dos documentos, das circunstâncias em que o contrato foi firmado e das conclusões das autoridades responsáveis.

Mendonça quer análise pública pelo STF

Diante dos novos elementos, André Mendonça decidiu retirar o sigilo do material e encaminhar a discussão ao plenário do Supremo.

O ministro pediu ao presidente da Corte, Edson Fachin, que seja marcada uma sessão presencial para que os integrantes do tribunal examinem as informações apresentadas pela Polícia Federal.

A proposta é que a questão seja apreciada de forma colegiada, inclusive quanto à possibilidade de abertura de uma investigação envolvendo Alexandre de Moraes. Mendonça sustenta que o plenário é a instância adequada para uma análise técnica e jurídica dos elementos reunidos no caso.

A Procuradoria-Geral da República também deverá se manifestar sobre parte dos elementos antes da apreciação pelo Supremo.

Divergência entre ministros

A divulgação dos documentos provocou ainda um episódio de tensão dentro do próprio STF.

Alexandre de Moraes procurou André Mendonça depois de tomar conhecimento de que o relator havia recebido informações envolvendo seu nome. Segundo relatos divulgados nesta terça-feira, Moraes questionou Mendonça sobre a existência da apuração, enquanto o relator afirmou que o procedimento estava sob sigilo.

A conversa evoluiu para uma discussão mais acalorada entre os dois ministros, segundo diferentes relatos publicados ao longo do dia.

O episódio ocorre justamente no momento em que Mendonça defende que os novos elementos sejam examinados pelo conjunto dos ministros, em sessão presencial e pública.

Caso ainda não estabelece irregularidade

As mensagens divulgadas pela Polícia Federal revelam uma sequência de contatos entre Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes, inclusive em período imediatamente anterior à prisão do banqueiro. Também apresentam pedidos feitos pelo empresário envolvendo autoridades públicas e questões relacionadas às investigações que atingiam o Banco Master.

Esses elementos, porém, não equivalem automaticamente à comprovação de crime ou de interferência indevida por parte do ministro.

A eventual existência de encontros, pedidos ou relações profissionais precisa ser analisada em seu contexto e confrontada com os demais elementos reunidos pelas autoridades. Caberá ao STF, à PGR e aos órgãos competentes definir se há fundamento jurídico para o aprofundamento das investigações.

Procurados pela imprensa, Alexandre de Moraes, Daniel Vorcaro e outros envolvidos nos documentos não haviam apresentado, até a publicação desta reportagem, manifestação capaz de esclarecer integralmente o conteúdo das conversas e as circunstâncias dos contatos.

O episódio agora deverá ser submetido à análise do plenário do Supremo Tribunal Federal.

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