Um dos tumores mais difíceis de tratar na oncologia acaba de ganhar uma nova alternativa terapêutica nos Estados Unidos. A Food and Drug Administration (FDA) aprovou, na quarta-feira (26), o daraxonrasib, medicamento oral desenvolvido para pacientes adultos com adenocarcinoma de pâncreas avançado. Comercializado nos Estados Unidos sob o nome Rasonque, o tratamento representa um avanço por atuar diretamente sobre uma das principais vias responsáveis pela progressão desse tipo de câncer.

A decisão da agência norte-americana ocorre poucos meses depois de resultados clínicos que provocaram forte repercussão entre especialistas. Apresentados durante a reunião anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), em Chicago, os dados do estudo de fase 3 RASolute 302 apontaram que pacientes tratados com daraxonrasib tiveram sobrevida global média de aproximadamente 13,2 meses, diante de cerca de 6,6 a 6,7 meses entre aqueles submetidos à quimioterapia utilizada como comparação.

A diferença chamou atenção justamente porque o câncer de pâncreas continua associado a um dos cenários mais desfavoráveis da oncologia. A doença frequentemente é identificada em estágio avançado, quando as possibilidades de intervenção são mais restritas e os ganhos obtidos com os tratamentos convencionais permanecem limitados.

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O alvo está no mecanismo de crescimento do tumor

O diferencial do novo medicamento está no mecanismo de ação. O daraxonrasib pertence a uma nova classe de inibidores da família RAS e foi desenvolvido para bloquear a atividade de proteínas que participam diretamente da sinalização responsável pelo crescimento e pela multiplicação das células tumorais.

A proteína KRAS, integrante dessa família, apresenta alterações em mais de 90% dos casos de adenocarcinoma ductal pancreático metastático, a forma mais comum de câncer de pâncreas. Durante décadas, atingir essa via foi considerado um dos grandes desafios da pesquisa oncológica.

O medicamento foi concebido para atuar sobre essa sinalização e interromper estímulos que favorecem a proliferação das células cancerosas. Trata-se, portanto, de uma estratégia diferente da quimioterapia tradicional, que utiliza medicamentos capazes de atingir células que se multiplicam rapidamente.

Os resultados do estudo RASolute 302 indicaram não apenas aumento da sobrevida, mas também melhora em determinados indicadores relacionados à progressão da doença, resposta ao tratamento e qualidade de vida. A Pancreatic Cancer Action Network classificou os resultados como um dos avanços mais expressivos já observados no tratamento do câncer de pâncreas, embora ressalte que resistência ao tratamento ainda pode surgir e que novas pesquisas permanecem necessárias.

Por que os resultados provocaram tanta reação

O impacto dos dados está relacionado ao histórico particularmente difícil do câncer de pâncreas. Durante a apresentação dos resultados na ASCO, especialistas descreveram a reação da comunidade médica como incomum diante dos números apresentados.

A oncologista Rachna Shroff, da Universidade do Arizona, relatou que chorou ao conhecer os resultados, após anos acompanhando pacientes com a doença. A reação ajudou a dimensionar o significado atribuído pelos especialistas ao estudo, especialmente diante de uma enfermidade na qual os avanços terapêuticos têm sido historicamente mais lentos.

A emoção, contudo, não substitui a análise científica. O resultado mais importante está nos dados obtidos em um estudo clínico randomizado de fase 3, que comparou o medicamento com o tratamento utilizado como padrão naquele cenário.

A expectativa agora é que a nova estratégia seja estudada também em fases mais precoces da doença e em combinação com outras terapias. Pesquisadores avaliam ainda o potencial de medicamentos que atuam sobre a via RAS para outros tipos de câncer nos quais alterações semelhantes participam do desenvolvimento dos tumores.

Tratamento ainda não está disponível no Brasil

Apesar da aprovação nos Estados Unidos, o daraxonrasib não está automaticamente autorizado para uso comercial no Brasil.

Para que o medicamento possa ser comercializado no país, será necessário passar pelo processo de avaliação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A análise brasileira envolve aspectos relacionados à qualidade, segurança e eficácia do produto.

A aprovação norte-americana, portanto, não significa que pacientes brasileiros já possam adquirir regularmente o medicamento em farmácias.

Também há uma questão econômica. Nos Estados Unidos, o custo anunciado para 30 dias de tratamento é de aproximadamente US$ 39,8 mil, valor que corresponde a cerca de R$ 220 mil na conversão mencionada pela reportagem de origem. O preço efetivamente praticado e eventual acesso ao tratamento no Brasil dependeriam, entre outros fatores, dos processos regulatórios e de incorporação aplicáveis no país.

Avanço importante, mas não uma cura

O entusiasmo em torno do daraxonrasib precisa ser acompanhado de uma distinção fundamental: o medicamento não representa uma cura para o câncer de pâncreas.

Os dados disponíveis apontam um ganho expressivo de sobrevida para pacientes com doença metastática que já receberam tratamento anterior. Isso representa uma mudança relevante em um cenário de poucas alternativas, mas não elimina a necessidade de acompanhamento médico, nem significa que todos os pacientes responderão da mesma maneira.

O próprio desenvolvimento do medicamento continua avançando para outras situações clínicas. Estudos ainda investigam se a estratégia poderá produzir benefícios quando utilizada mais cedo no curso da doença ou combinada a outras formas de tratamento.

O que a aprovação representa, portanto, é algo mais preciso — e talvez mais importante — do que uma promessa de cura: a possibilidade concreta de ampliar o tempo e a qualidade de vida de parte dos pacientes com uma doença que, durante décadas, ofereceu poucas alternativas terapêuticas capazes de alterar de maneira significativa sua evolução.

Para a oncologia, a novidade também abre uma frente de pesquisa que ultrapassa o câncer de pâncreas. A possibilidade de bloquear diretamente mecanismos da família RAS poderá orientar o desenvolvimento de novas terapias contra outros tumores nos quais essas alterações desempenham papel relevante.

O próximo capítulo dessa história dependerá dos estudos em andamento, da experiência clínica após a aprovação e, no caso brasileiro, da avaliação das autoridades sanitárias. Por enquanto, os resultados colocam o daraxonrasib entre os avanços mais relevantes recentemente registrados na busca por tratamentos mais eficazes contra o câncer de pâncreas avançado.

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