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O tempo consumido diariamente entre a casa e o trabalho deixou de ser apenas uma questão de mobilidade urbana. Para milhões de brasileiros, longos deslocamentos passaram a ocupar uma parcela significativa da rotina, comprimindo as horas destinadas ao descanso, ao lazer, à atividade física e à convivência social.
Um levantamento da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), realizado em parceria com o SPC Brasil e o Sebrae, aponta que moradores de grandes centros urbanos permanecem, em média, o equivalente a 21 dias por ano no trânsito. No Rio de Janeiro, os deslocamentos assumem proporções ainda maiores: estudo do aplicativo de mobilidade Moovit indica que o percurso médio entre residência e trabalho na Região Metropolitana é de 58 minutos por viagem.
Entre os usuários do transporte público, a situação é mais acentuada. Segundo o levantamento, 11% permanecem duas horas ou mais em cada deslocamento. Nesses casos, o tempo diário consumido apenas no trajeto pode superar quatro horas.
Para o psicólogos, o impacto dessa rotina não decorre somente da duração da viagem. As próprias condições encontradas durante o percurso podem contribuir para o desgaste. Insegurança, imprevisibilidade dos horários, ruídos, superlotação e desconforto são alguns dos fatores apontados por especialistas.
A consequência, é a redução do tempo disponível para outras dimensões da vida. Quanto maior o período destinado ao deslocamento, menor tende a ser o espaço reservado para repouso, exercícios físicos, alimentação adequada, lazer e relações sociais.
O desgaste pode começar antes do expediente
A jornada de trabalho pode, em determinadas situações, começar emocionalmente antes mesmo de o trabalhador chegar ao local de serviço. A percepção de que grande parte do dia está restrita ao trabalho e aos deslocamentos pode vir acompanhada de irritabilidade, impaciência e redução da disposição para atividades que não estejam relacionadas às obrigações profissionais.
Entre os sinais que merecem atenção estão o cansaço ainda no início do expediente, a falta de energia para momentos de lazer, a irritabilidade recorrente e a sensação de que a rotina se resume a acordar, enfrentar o deslocamento, trabalhar, retornar para casa e dormir.
O problema, portanto, não se restringe ao trânsito em si. Quando o deslocamento passa a consumir tempo que antes era destinado à recuperação física e emocional, seus efeitos podem se estender para outras áreas da vida.
Trabalho, relacionamentos e sono também podem sofrer
No ambiente profissional, o desgaste acumulado pode repercutir sobre a concentração, a disposição e o interesse pelas atividades cotidianas.
Fora do trabalho, a redução da energia disponível pode dificultar a manutenção de relações sociais e favorecer o isolamento. O especialista também aponta possíveis reflexos sobre a vida afetiva, inclusive com redução da libido.
O sono é outro aspecto particularmente sensível. A dificuldade de recuperar as energias pode alimentar um ciclo de estresse e cansaço, comprometendo a capacidade de descanso.
Como reduzir o impacto da rotina
Nem sempre está ao alcance do trabalhador diminuir o tempo gasto no trânsito. Ainda assim, algumas mudanças podem tornar o deslocamento menos desgastante.
Uma das recomendações é evitar transformar o percurso em uma extensão da jornada profissional. Sempre que possível, o tempo no transporte público ou em veículos de aplicativo pode ser utilizado para atividades que não estejam relacionadas às demandas do trabalho, evitando a continuidade permanente das obrigações profissionais.
Manter alimentação equilibrada e adequada hidratação também é importante, sobretudo em períodos de calor e baixa umidade, quando as condições do deslocamento podem aumentar o desconforto.
Outra medida é preservar, dentro da rotina, momentos destinados a atividades prazerosas. A ausência completa de lazer pode fazer com que os dias se resumam à sucessão de obrigações, deslocamentos e sono.
Também pode ser útil estabelecer períodos de afastamento das demandas profissionais e reservar espaço para relações sociais, descanso e outras atividades que contribuam para a recuperação das energias.
Quando o desgaste merece atenção
O acompanhamento de um profissional pode ser considerado quando o impacto da rotina de deslocamentos passa a interferir de maneira persistente no cotidiano.
Esgotamento constante, ansiedade, alterações de humor, apatia e dificuldades para dormir estão entre os sinais que justificam atenção. Nesses casos, a avaliação individual de um profissional de saúde pode ajudar a identificar as causas do quadro e orientar a conduta mais adequada.
O trânsito, por si só, é um desafio de mobilidade. Quando as horas consumidas no deslocamento passam a retirar espaço sistematicamente do descanso, do convívio e do autocuidado, porém, a questão deixa de ser apenas urbana e passa a alcançar também a qualidade de vida.
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