Houve um tempo em que a rua, a praça e o quintal eram extensões naturais da infância. Depois da escola, crianças se reuniam para jogar bola, brincar de pique, andar de bicicleta, brincar de boneca ou simplesmente correr sem um roteiro definido. O movimento fazia parte da rotina quase sem que fosse percebido como uma atividade física.

Hoje, esse cenário mudou.

Em muitas famílias, parte significativa do tempo livre das crianças é ocupada por celulares, tablets, videogames, computadores e televisão. As brincadeiras que exigiam deslocamento, interação e movimento passaram a disputar espaço com atividades realizadas, em grande parte, diante de uma tela.

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A transformação dos hábitos infantis também coloca em evidência uma questão de saúde que vem preocupando especialistas: a obesidade infantil.

O problema não pode ser atribuído exclusivamente ao uso de aparelhos eletrônicos. A alimentação, o sono, a rotina familiar, fatores genéticos, condições sociais e outros aspectos também participam desse cenário. Entretanto, quando o tempo diante das telas substitui atividades que envolvem movimento, a criança pode passar mais horas do dia em comportamento sedentário.

Quando brincar deixa de fazer parte da rotina

Brincar sempre foi uma das formas mais naturais de uma criança se movimentar.

Uma partida improvisada de futebol, uma corrida entre amigos, uma brincadeira de pega-pega ou algumas horas andando de bicicleta representam momentos em que a atividade física acontece espontaneamente, sem necessariamente ser percebida como exercício.

Com a presença cada vez maior da tecnologia no cotidiano, porém, essas experiências podem se tornar menos frequentes.

O celular oferece entretenimento imediato. Um vídeo leva a outro. Um jogo pode ocupar horas. As redes sociais e os conteúdos digitais estão disponíveis a qualquer momento.

O desafio, portanto, não está simplesmente em proibir a tecnologia, mas em impedir que ela ocupe todo o espaço destinado ao movimento, à convivência e às brincadeiras.

Uma infância mais parada

O sedentarismo infantil não se resume ao fato de uma criança utilizar o celular. Uma criança pode usar tecnologia e, ao mesmo tempo, manter uma rotina ativa, praticar esportes, brincar ao ar livre e participar de atividades que envolvam movimento.

A preocupação surge quando o tempo sedentário se torna predominante.

Passar longos períodos sentado, especialmente quando isso substitui atividades físicas, pode contribuir para um balanço energético desfavorável. Somado a hábitos alimentares inadequados e a outros fatores, esse comportamento pode favorecer o ganho excessivo de peso.

A obesidade infantil, por sua vez, não deve ser encarada apenas como uma questão estética. Trata-se de uma condição que pode repercutir sobre a saúde física e emocional da criança e aumentar o risco de problemas de saúde ao longo da vida.

O papel da família

Nesse cenário, a mudança não depende exclusivamente da criança.

São os adultos que, em grande parte, organizam a rotina doméstica, definem horários, oferecem alimentos e estabelecem limites para o uso dos dispositivos eletrônicos.

Por isso, especialistas em saúde infantil costumam defender uma rotina equilibrada, que contemple sono adequado, alimentação variada, atividade física, convivência familiar e períodos de lazer sem telas.

E não é necessário recuperar exatamente a infância de décadas atrás.

A bola pode continuar existindo, mas também pode haver bicicleta, dança, natação, caminhada, esporte, parque ou qualquer outra atividade apropriada à idade que faça a criança se movimentar e interagir.

O celular não precisa desaparecer — mas não pode ocupar tudo

A tecnologia já faz parte da vida contemporânea e também pode ter utilidade educacional, recreativa e social. O problema está no desequilíbrio.

A questão que se apresenta às famílias não é necessariamente “celular ou brincadeira”, mas quanto espaço cada atividade ocupa na rotina.

Uma infância saudável não precisa escolher entre o mundo digital e o mundo físico. Precisa encontrar equilíbrio entre eles.

Talvez a questão mais importante seja simples: se antes era comum perguntar “vamos brincar?”, hoje também seja necessário fazer essa pergunta novamente.

Porque, em uma infância cada vez mais conectada, correr, jogar bola, brincar de pique, andar de bicicleta ou simplesmente sair para brincar continuam sendo experiências que nenhuma tela consegue substituir completamente.

JORNAL NOVA GERAÇÃO
"
A VERDADE DOS FATOS"

FONTE/CRÉDITOS: Karollinni - JORNALISTA | JORNAL NOVA GERAÇÃO