Nem sempre o sofrimento emocional se manifesta de maneira evidente. Em vez de tristeza declarada ou de um pedido explícito de ajuda, ele pode aparecer em mudanças discretas — e, por vezes, progressivas — na maneira como uma pessoa se relaciona, trabalha, estuda, dorme ou cuida de si.

Durante o Setembro Amarelo, período dedicado à conscientização sobre a prevenção do suicídio e à valorização da vida, especialistas chamam atenção para comportamentos que, quando persistentes e diferentes do padrão habitual, podem indicar que alguém está atravessando um momento de sofrimento e necessita de acolhimento.

A dimensão do problema ajuda a explicar a importância de reconhecer esses sinais. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 720 mil pessoas morrem por suicídio a cada ano no mundo, enquanto, para cada morte, provavelmente mais de 20 tentativas são registradas. No Brasil, a estimativa citada na reportagem aponta prevalência de depressão ao longo da vida em aproximadamente 15,5% da população. No Espírito Santo, o Anuário Estadual da Segurança Pública registrou 786 ocorrências de suicídio em 2024.

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O que pode merecer atenção

Um dos primeiros sinais pode ser o afastamento repentino. Uma pessoa habitualmente sociável pode começar a recusar encontros, reduzir o contato com familiares e amigos ou demonstrar preferência constante pelo isolamento.

Outro indicativo é a perda persistente de interesse por atividades que anteriormente faziam parte de sua vida. Abandonar hobbies, esportes, encontros ou outras ocupações pode merecer atenção quando representa uma mudança significativa em relação ao comportamento anterior.

Também é importante observar alterações no trabalho, nos estudos e na rotina. Dificuldade de concentração, queda de rendimento, faltas frequentes e abandono de compromissos podem estar associados a sofrimento emocional, especialmente quando permanecem ao longo do tempo e provocam prejuízo concreto na vida cotidiana.

As manifestações, contudo, não se restringem à tristeza. Irritabilidade, impaciência, agitação, agressividade ou apatia também podem surgir quando alguém enfrenta dificuldades emocionais. Uma transformação acentuada no temperamento, sobretudo quando não corresponde ao padrão habitual daquela pessoa, pode justificar uma aproximação cuidadosa.

Mudanças no apetite e no autocuidado igualmente merecem observação. Comer muito mais ou muito menos, abandonar hábitos de higiene, deixar de cuidar da própria aparência ou apresentar dificuldade para executar tarefas básicas são alterações que podem acompanhar períodos de sofrimento.

O sono é outro aspecto relevante. Insônia ou necessidade incomum de dormir por longos períodos podem aparecer associadas a alterações de humor, apetite, concentração e disposição. Um episódio isolado, porém, não permite concluir que exista um problema de saúde mental; a persistência e o impacto na vida diária são elementos importantes nessa avaliação.

Quando o comportamento muda, a atenção também precisa mudar

O aumento do consumo de álcool ou outras substâncias, especialmente quando representa uma mudança brusca ou passa a ser utilizado como tentativa de lidar com o sofrimento, também constitui um sinal que não deve ser ignorado.

Mais delicadas são manifestações de desesperança, inutilidade ou perda de sentido na vida. Falas relacionadas ao desejo de desaparecer, à incapacidade de suportar determinada situação ou à vontade de não estar mais presente devem ser recebidas com seriedade, mesmo quando quem as escuta não sabe exatamente qual era a intenção da pessoa ao dizê-las.

Mudanças abruptas de comportamento e atitudes impulsivas também exigem atenção. A pessoa pode passar a assumir riscos incomuns, abandonar atividades importantes ou se afastar de pessoas próximas. Uma alteração repentina depois de um período de sofrimento intenso também não deve ser automaticamente interpretada como sinal de melhora.

É fundamental, entretanto, evitar conclusões precipitadas. Nenhum desses comportamentos, isoladamente, estabelece um diagnóstico. Alterações no sono, no humor, no rendimento ou no convívio social podem decorrer de diferentes circunstâncias e não significam, por si mesmas, depressão, ansiedade ou outro transtorno.

A avaliação deve considerar principalmente a intensidade, a duração e o prejuízo provocado pelas mudanças. Quando o sofrimento persiste, se torna intenso ou começa a comprometer relacionamentos, trabalho, estudos, rotina ou capacidade de autocuidado, a orientação dos especialistas é procurar avaliação profissional.

Como se aproximar sem transformar o acolhimento em cobrança

Perceber que alguém mudou é apenas o primeiro passo. A maneira de abordar essa pessoa pode ser decisiva para que ela se sinta segura para falar sobre o que está vivendo.

A recomendação é iniciar a conversa com preocupação genuína, escuta e ausência de julgamentos. Em vez de tentar apresentar respostas imediatamente, é mais importante permitir que a pessoa fale e demonstrar disposição para permanecer ao seu lado.

Críticas, comparações e cobranças devem ser evitadas. Frases que reduzem o sofrimento a falta de força ou que sugerem simplesmente “pensar positivo” podem aumentar a sensação de incompreensão.

Quando houver preocupação com risco de suicídio, perguntar diretamente sobre o assunto, de maneira acolhedora e responsável, não provoca o comportamento suicida. Segundo o psiquiatra ouvido pela reportagem, a conversa direta pode justamente abrir espaço para que a pessoa manifeste algo que vinha guardando.

Também não é necessário esperar que a situação chegue a um momento extremo para procurar ajuda. Se o sofrimento já interfere na rotina, nos relacionamentos ou na capacidade de cuidar de si, esse pode ser o momento adequado para buscar acompanhamento profissional.

Onde procurar ajuda

O Centro de Valorização da Vida (CVV) atende pelo telefone 188, gratuitamente e 24 horas por dia.

Em uma situação de risco imediato, a orientação é procurar um serviço de urgência e emergência e não deixar a pessoa sozinha.

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