Em uma área do litoral de Gibraltar onde predominava um extenso fundo arenoso, embarcações que já haviam perdido sua utilidade passaram a desempenhar uma função inesperada: servir de estrutura para a formação de novos habitats submersos.

A iniciativa remonta à década de 1970 e está ligada ao mergulhador Eric Shaw, que identificou nos antigos barcos uma alternativa para introduzir relevo e superfícies rígidas em uma região com poucas formações capazes de oferecer abrigo à fauna marinha.

Ao longo de mais de cinco décadas, o projeto incorporou mais de 30 embarcações, transformando antigos cascos em uma rede de estruturas submersas. Com o tempo, essas superfícies passaram a ser ocupadas por organismos marinhos e utilizadas como abrigo por diferentes espécies.

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UMA NOVA PAISAGEM SOB A ÁGUA

A lógica do projeto é relativamente simples. Em um fundo predominantemente formado por areia, há menos superfícies verticais, cavidades e estruturas rígidas disponíveis para a fixação de organismos e para a proteção de pequenos animais.

Um casco submerso modifica esse cenário. Sua estrutura cria frestas, compartimentos, áreas protegidas e diferentes níveis acima do leito marinho. Esses espaços podem ser utilizados por peixes e invertebrados, enquanto algas e outros organismos encontram novas superfícies para se estabelecer.

A ocupação ocorre de maneira gradual. O barco recém-afundado não se transforma imediatamente em um recife plenamente desenvolvido. Primeiro surgem organismos capazes de colonizar suas superfícies; posteriormente, a presença dessa comunidade pode atrair outras espécies em busca de alimento ou proteção.

É esse processo sucessivo de ocupação que dá ao casco uma função ecológica distinta daquela que possuía quando ainda estava em operação.

UMA EXPERIÊNCIA QUE SE ESTENDE POR DÉCADAS

Os primeiros registros da iniciativa remontam a 1973, quando Eric Shaw passou a defender a criação de estruturas artificiais no fundo marinho. Segundo registros históricos, as primeiras barcaças foram colocadas em Camp Bay, em 1974.

Há, contudo, uma diferença de referência entre as fontes sobre o marco inicial do programa. Enquanto registros históricos situam as primeiras experiências entre 1973 e 1974, documentos governamentais consideram 1975 como o início formal da iniciativa organizada.

A diferença não altera o aspecto central da história: há mais de meio século, Gibraltar desenvolve uma experiência de utilização planejada de embarcações desativadas para ampliar a complexidade do ambiente marinho.

Com o passar dos anos, novos cascos foram incorporados ao sistema. Entre eles está o Sun Swale, um rebocador desativado com aproximadamente 30 metros de comprimento. Segundo informações do governo local, mais de 30 embarcações já foram utilizadas na formação dos recifes artificiais distribuídos pela costa.

NÃO É APENAS AFUNDAR UM BARCO

A utilização de embarcações como recifes artificiais exige preparação. Antes que uma estrutura seja levada ao fundo, materiais potencialmente poluentes precisam ser removidos, assim como objetos soltos ou componentes que possam se desprender posteriormente.

Combustíveis, lubrificantes e outros elementos capazes de comprometer a qualidade da água devem ser retirados. Também entram no planejamento fatores como profundidade, correntes marítimas, estabilidade do casco e distância em relação a habitats naturais, áreas de pesca e rotas de navegação.

A escolha do local também é determinante. O objetivo não é simplesmente retirar uma embarcação antiga de circulação, mas posicioná-la de maneira que sua estrutura possa desempenhar uma função ambiental adequada.

Estudos sobre recifes artificiais indicam que essas estruturas podem apresentar comunidades de peixes com níveis de densidade, biomassa, riqueza e diversidade semelhantes aos encontrados em recifes naturais. Os resultados, entretanto, variam conforme o local e as características da estrutura utilizada.

DE DESCARTE A HABITAT

A experiência diante de Gibraltar oferece um exemplo singular de como uma estrutura criada para a navegação pode adquirir outra finalidade depois de retirada de serviço.

Os barcos não produzem, por si mesmos, um ecossistema instantâneo. O que oferecem é a base física para que a vida marinha encontre novas superfícies, esconderijos e pontos de abrigo em uma região onde essas condições eram mais escassas.

Décadas depois das primeiras intervenções, aquilo que começou como uma solução para acrescentar estruturas a um fundo arenoso transformou-se em uma paisagem submarina formada por dezenas de embarcações.

A história também evidencia que iniciativas desse tipo dependem menos do simples ato de afundar objetos e mais de planejamento ambiental, preparação técnica e escolha criteriosa do local. No fundo do mar de Gibraltar, antigos barcos ganharam uma segunda existência — desta vez, integrados a um ambiente no qual deixaram de transportar pessoas para passar a acolher outras formas de vida.

JORNAL NOVA GERAÇÃO
“A VERDADE DOS FATOS”