No Estado apresentado pelo ex-governador Ronaldo Caiado (PSD) como exemplo de enfrentamento à criminalidade, os dados sobre a cadeia de produção da cocaína desenham uma realidade que merece ser colocada em perspectiva.

Levantamento do Instituto Fogo Cruzado identificou, em Goiás, 44 estruturas de larga capacidade produtiva, dentro de um universo de 81 estruturas localizadas no Estado entre 2019 e julho de 2025. O estudo integra o relatório Floresta em Pó, que mapeou 550 estruturas de processamento de cocaína no país.

Entre as 44 estruturas classificadas como de maior capacidade em Goiás, 20 são destinadas ao refino e 24 à adulteração ou “engorda” da droga. O levantamento também insere o Estado na chamada Rota Caipira, corredor utilizado pelo tráfico para a circulação de cocaína a partir das fronteiras brasileiras com Paraguai e Bolívia.

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A dimensão do fenômeno ultrapassa, contudo, os limites de Goiás. O relatório aponta uma mudança no papel desempenhado pelo Brasil na cadeia internacional da cocaína. O país deixou de figurar apenas como território de passagem e passou a concentrar também estruturas destinadas ao processamento da droga, em uma atividade que movimenta cerca de US$ 6 bilhões por ano.

É justamente nesse ponto que os números colocam em xeque a imagem de Goiás como referência absoluta em segurança pública construída no discurso político de Caiado. O ex-governador tem apresentado a experiência goiana como um modelo capaz de ser reproduzido nacionalmente, associando sua trajetória administrativa a resultados no combate à criminalidade.

Essa narrativa também aparece formalmente no plano de governo apresentado por Caiado ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O documento afirma que “a experiência de Goiás mostra que esse cenário pode ser modificado”, reforçando, em linguagem institucional, a ideia de que as medidas adotadas no Estado poderiam servir de parâmetro para o enfrentamento da criminalidade em âmbito nacional.

Os dados sobre o refino de cocaína, entretanto, introduzem uma contradição objetiva nessa apresentação. Um Estado que figura entre os principais pontos identificados no país para o processamento da droga também enfrenta a presença de uma estrutura criminosa inserida em uma cadeia internacional de tráfico.

A questão, portanto, não é afirmar que a existência dessas estruturas seja, por si só, prova de fracasso de uma administração específica. O ponto central é outro: os números revelam que a realidade do crime organizado em Goiás é mais complexa do que a imagem de um Estado em que a criminalidade simplesmente não encontra espaço, como sugere o discurso político associado a Caiado.

O levantamento do Instituto Fogo Cruzado e a narrativa de segurança apresentada pelo ex-governador partem de perspectivas distintas sobre o mesmo território. De um lado, Goiás é apresentado como experiência bem-sucedida de segurança pública; de outro, os dados revelam sua presença relevante dentro da cadeia nacional de processamento da cocaína.

É nesse contraste que a dimensão do problema se torna mais evidente: o discurso de segurança pública ganhou projeção nacional, mas os dados sobre o narcotráfico mostram que Goiás continua inserido em uma das mais complexas estruturas criminosas que atravessam o território brasileiro.

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