O tratamento da dependência química continua sendo um dos grandes desafios da medicina. Entre as alternativas estudadas para auxiliar pacientes em recuperação está a ibogaína, uma substância de origem vegetal que vem sendo utilizada em protocolos específicos, embora ainda gere debates quanto à sua eficácia e segurança.

Extraída da planta africana Tabernanthe iboga, a ibogaína possui propriedades psicoativas e tem sido alvo de pesquisas desde a década de 1960. Alguns estudos apontam potencial para reduzir sintomas de abstinência e auxiliar no processo de recuperação de dependentes químicos. No entanto, especialistas ressaltam que as evidências científicas ainda são limitadas.

O que é a ibogaína?

A ibogaína é um alcaloide natural presente na raiz da planta Tabernanthe iboga, tradicionalmente utilizada em cerimônias religiosas na África Central.

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Seu interesse na medicina surgiu após observações de que alguns usuários apresentavam redução do desejo pelo consumo de drogas após o uso da substância. Desde então, universidades e centros de pesquisa investigam seus possíveis efeitos sobre o sistema nervoso.

Situação da ibogaína no Brasil

A ibogaína não possui registro para comercialização junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Entretanto, sua importação pode ser autorizada em situações específicas, mediante prescrição médica, para uso individualizado dentro das normas estabelecidas pela legislação sanitária brasileira.

A aplicação deve ocorrer exclusivamente sob supervisão médica e em ambiente preparado para monitoramento contínuo do paciente.

Como é realizado o tratamento?

Antes da administração da substância, o paciente passa por uma avaliação clínica detalhada, incluindo exames laboratoriais e cardiológicos.

A aplicação é feita por via oral, e os efeitos costumam durar entre 24 e 48 horas. Durante esse período, é comum que ocorram alterações perceptivas, recordações intensas e experiências de forte conteúdo emocional, motivo pelo qual o acompanhamento profissional é considerado indispensável.

Após a sessão, recomenda-se a continuidade do tratamento com acompanhamento psicológico, psiquiátrico e terapêutico para reduzir o risco de recaídas.

Quem pode fazer esse tratamento?

O protocolo costuma ser indicado apenas para pacientes que já passaram por outras formas de tratamento e apresentam dependência química de difícil controle.

Existem contraindicações importantes. Em geral, a ibogaína não é recomendada para pessoas com:

  • doenças cardíacas;
  • alterações graves no fígado ou nos rins;
  • histórico de acidente vascular cerebral (AVC) ou aneurisma;
  • esquizofrenia, psicose e alguns transtornos bipolares;
  • condições clínicas que aumentem o risco de complicações durante o procedimento.

Cada caso deve ser avaliado individualmente por equipe médica.

Quais são os riscos?

A principal preocupação dos especialistas está relacionada aos possíveis efeitos cardiovasculares.

A ibogaína pode provocar alterações no ritmo cardíaco, incluindo arritmias potencialmente graves. Também podem ocorrer náuseas, vômitos, tontura e alterações da pressão arterial.

Por esse motivo, o tratamento exige monitoramento constante e estrutura adequada para atendimento de eventuais intercorrências.

O que dizem os estudos?

Pesquisas realizadas no Brasil e em outros países indicam resultados considerados promissores em parte dos pacientes acompanhados.

Em alguns estudos, participantes apresentaram redução do consumo de drogas e períodos prolongados de abstinência quando o tratamento foi associado ao acompanhamento psicológico e à reabilitação contínua.

Apesar desses resultados, pesquisadores destacam que ainda são necessários estudos clínicos mais amplos para confirmar a eficácia e definir protocolos seguros para utilização da substância.

Posição da Associação Brasileira de Psiquiatria

A Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) afirma que ainda não existem evidências científicas suficientes para recomendar a ibogaína como tratamento de rotina para dependência química.

Segundo a entidade, embora haja pesquisas em andamento, os possíveis benefícios ainda precisam ser confirmados por estudos clínicos mais robustos, especialmente diante dos riscos cardiovasculares associados ao uso da substância.

Tratamento não substitui acompanhamento especializado

Especialistas reforçam que a recuperação da dependência química envolve um processo contínuo, que inclui suporte médico, psicológico, psiquiátrico, familiar e social.

Mesmo nos casos em que a ibogaína é utilizada, ela não deve ser considerada uma cura para a dependência, mas sim uma possível ferramenta complementar dentro de um plano terapêutico cuidadosamente elaborado e acompanhado por profissionais habilitados.

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