O ambiente de crédito mais caro imposto pelo ciclo de juros elevados tem efeitos distintos dentro do agronegócio brasileiro. Estudo elaborado pelo Rabobank aponta que os produtores rurais que atuam como pessoas físicas estão mais expostos à deterioração das condições financeiras provocada pelo aperto monetário, enquanto empresas do setor dispõem de maior proteção decorrente do acesso a modalidades direcionadas de financiamento.

Intitulada “Além do Plano-Safra: Crédito Rural sob Aperto Monetário”, a análise foi produzida por Mauricio Une, economista-chefe do Rabobank para a América do Sul, e pelo economista Renan Alves. O trabalho utiliza informações do Banco Central e dados da própria instituição para examinar o comportamento do crédito rural durante períodos de elevação da Selic.

Segundo os pesquisadores, a política monetária chega ao campo principalmente por meio do encarecimento do financiamento. O impacto, contudo, não se distribui de maneira uniforme entre os diferentes perfis de tomadores de crédito.

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Entre os produtores pessoas físicas, o estudo identifica uma resposta mais perceptível da inadimplência após os movimentos de aperto monetário. A análise estima aumento de aproximadamente 0,1 ponto percentual nesse indicador entre seis e 12 meses depois de um choque de juros.

No segmento das pessoas jurídicas, por outro lado, o comportamento observado é diferente. As concessões de crédito apresentam avanço de 0,37 ponto percentual após seis meses, segundo os dados analisados no estudo.

A diferença está relacionada, entre outros fatores, à composição das fontes de financiamento disponíveis para cada grupo. Empresas do agronegócio têm participação mais expressiva em operações vinculadas a linhas direcionadas e subsidiadas, entre elas aquelas associadas ao Plano Safra, o que reduz parte da exposição direta às oscilações das taxas praticadas no mercado.

Isso não significa, entretanto, que o setor empresarial esteja imune aos efeitos de uma política monetária restritiva. O estudo evidencia que a transmissão dos juros para o crédito rural ocorre de forma ampla, mas com intensidade variável conforme o perfil do produtor, a modalidade de financiamento e as condições de renda do próprio setor.

Outro elemento relevante é o comportamento das receitas agropecuárias. A eventual deterioração da capacidade de pagamento não depende exclusivamente da taxa de juros: preços das commodities, custos de produção e desempenho da renda no campo também interferem na trajetória da inadimplência.

O diagnóstico ganha relevância em um cenário no qual o acesso ao financiamento passou a exigir maior atenção por parte dos agentes do agronegócio. Dados anteriores do Banco Central já haviam indicado forte elevação da inadimplência no crédito rural, sobretudo nas operações contratadas a taxas de mercado.

A leitura apresentada pelo Rabobank, portanto, reforça uma distinção importante dentro do sistema de financiamento agrícola: o impacto de juros elevados não é homogêneo e tende a ser mais pronunciado entre produtores pessoas físicas, cuja estrutura de crédito apresenta maior exposição às condições financeiras vigentes.

Para o agronegócio, o cenário coloca em evidência a importância das diferentes modalidades de financiamento e da estrutura de proteção oferecida pelas linhas direcionadas. Em períodos de política monetária restritiva, essa composição pode determinar diferenças relevantes na capacidade de absorver o aumento do custo do dinheiro e preservar a regularidade dos pagamentos.

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