Um mercado pouco conhecido vem despertando preocupação de autoridades ambientais e pesquisadores: o comércio ilegal de formigas raras pela internet.

Espécies exóticas, retiradas diretamente da natureza, passaram a ser procuradas por criadores amadores, principalmente na Europa. O negócio movimenta valores elevados e aumenta o alerta sobre biopirataria, retirada irregular de animais silvestres e possível introdução de espécies invasoras em novos ambientes.

No Quênia, apreensões recentes revelaram milhares de formigas escondidas em pequenas cápsulas durante fiscalizações realizadas em aeroportos. Entre os exemplares encontrados estava a Messor cephalotes, conhecida como formiga-colheitadeira-gigante-africana, considerada uma das maiores espécies de formigas do mundo.

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Uma única rainha da espécie pode ultrapassar o valor de 200 euros, cerca de R$ 1,2 mil, no mercado de colecionadores.

Apreensões revelam tráfico de insetos

A exportação de animais silvestres é proibida no Quênia, país que possui uma legislação rígida contra o tráfico de fauna.

Nos últimos anos, autoridades locais registraram casos de pessoas tentando retirar grandes quantidades de formigas do país. Em um dos episódios, um cidadão chinês foi condenado a um ano de prisão por biopirataria após tentar exportar os insetos ilegalmente.

Outro caso envolveu quatro homens, incluindo dois cidadãos belgas de 19 anos, que tentavam transportar cerca de 5,5 mil rainhas de formigas para a Europa. Eles receberam multas após serem condenados.

Retirada de rainhas ameaça equilíbrio ambiental

Pesquisadores alertam que o impacto não está apenas no comércio ilegal, mas também na retirada dos animais de seus habitats naturais.

O especialista em insetos Dino Martins afirma que muitas das formigas apreendidas eram rainhas jovens retiradas de ninhos subterrâneos em um período fundamental para a formação de novas colônias.

As formigas desempenham funções importantes nos ecossistemas, como a dispersão de sementes e a contribuição para a regeneração da vegetação.

Segundo especialistas, a retirada em grande escala desses animais pode afetar o equilíbrio natural de determinadas regiões.

Criação de formigas cresce como hobby

Na Europa, a criação de formigas em terrários ganhou espaço como um hobby de nicho. Entusiastas mantêm colônias em recipientes de vidro para acompanhar o desenvolvimento dos insetos.

Com o crescimento da prática, lojas virtuais passaram a oferecer diferentes espécies, incluindo formigas originárias da África.

O problema é que parte desse comércio ocorre em uma área de difícil fiscalização. Embora as formigas não sejam consideradas espécies ameaçadas pela Convenção sobre Comércio Internacional das Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção (Cites), alguns países possuem regras próprias para proteger sua fauna.

No Quênia, por exemplo, a retirada e exportação de animais silvestres é proibida.

Internet facilita expansão do mercado

Especialistas apontam que o comércio ilegal de animais silvestres pela internet deixou de ser uma atividade restrita a grupos pequenos e passou a utilizar plataformas digitais acessíveis ao público.

Pesquisas internacionais identificaram milhares de anúncios envolvendo animais silvestres, movimentando milhões de dólares.

Embora os insetos ainda sejam pouco estudados dentro desse mercado, pesquisadores afirmam que o comércio de espécies raras pode atrair organizações interessadas em altos lucros com baixo risco de fiscalização.

Espécies invasoras são outra preocupação

Além da retirada de animais da natureza, pesquisadores alertam para outro risco: a introdução de espécies exóticas em ambientes onde elas não existem naturalmente.

Na Europa, algumas espécies invasoras de formigas já provocam problemas em áreas urbanas, podendo afetar estruturas e causar impactos ambientais.

Biólogos afirmam que ninguém pode garantir que colônias comercializadas não sejam abandonadas ou liberadas na natureza, criando novos desequilíbrios ecológicos.

Especialistas defendem regras mais rigorosas para controlar esse comércio e evitar prejuízos à biodiversidade.

Enquanto a venda internacional de algumas espécies de formigas permanece pouco regulamentada, o alerta é para que a exploração desses animais não provoque danos irreversíveis aos ecossistemas.


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