Em período eleitoral, a quantidade de propostas apresentadas aos eleitores tende a crescer na mesma proporção em que aumenta a disputa por votos. O problema surge quando uma promessa ultrapassa os limites institucionais do cargo pretendido — ou quando apresenta como certa uma decisão que, na prática, depende de outros Poderes, órgãos ou etapas administrativas.

Nas Eleições 2026, compreender essas fronteiras é uma das maneiras de avaliar com maior precisão aquilo que os candidatos apresentam durante a campanha. Uma proposta pode ser politicamente atraente, mas ainda assim não estar entre as atribuições de quem pretende executá-la.

No caso da disputa pelo governo estadual, por exemplo, o candidato pode apresentar compromissos relacionados à recuperação e pavimentação de rodovias estaduais, à infraestrutura das escolas, à retomada de obras públicas e à área hospitalar. Também pode defender iniciativas legislativas dentro da competência do Executivo estadual, inclusive em assuntos relacionados ao sistema penitenciário.

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Há, contudo, limites claros. Um governador não possui competência para determinar medidas que pertencem à União, como intervenções sobre as Forças Armadas. Da mesma maneira, não pode encaminhar ao Legislativo estadual projetos sobre matérias que estejam fora da esfera constitucional de atuação do Executivo estadual.

O papel de quem disputa uma vaga no Senado

A diferença entre propor e executar também aparece na eleição para o Senado.

O senador exerce funções legislativas, fiscalizadoras e autorizativas. Por isso, não é correto apresentar como compromisso pessoal a garantia de que determinada proposta será aprovada. Um projeto passa por diferentes fases de análise e deliberação e está sujeito à avaliação dos demais parlamentares.

Também não está entre as atribuições de um senador executar diretamente obras ou entregar equipamentos públicos, como creches e escolas. O parlamentar pode apresentar propostas legislativas e atuar na análise de matérias submetidas ao Senado, mas a execução de políticas públicas obedece a competências próprias dos Poderes e das diferentes esferas administrativas.

O mesmo cuidado vale para as promessas feitas por candidatos à Câmara dos Deputados. Deputados federais podem apresentar projetos, propor alterações ou revogações de leis e exercer atividades de fiscalização, mas não têm competência para executar diretamente obras públicas ou comandar intervenções de infraestrutura.

Legislativo não é Executivo

A distinção entre as funções legislativa e executiva é fundamental para interpretar corretamente uma campanha eleitoral.

Deputados estaduais e distritais, por exemplo, têm entre suas atribuições legislar e fiscalizar o Executivo de seus respectivos Estados ou do Distrito Federal. Não cabe a eles, entretanto, alterar matérias cuja competência legislativa é reservada à União, como o Código Penal ou a definição da tabela do Imposto de Renda.

A questão, portanto, não está apenas no tamanho ou na popularidade de uma promessa. É preciso observar quem possui competência legal para transformar aquela proposta em medida concreta.

O eleitor como última instância de avaliação

Atualmente, não existe uma responsabilização eleitoral objetiva específica para o candidato que apresenta uma promessa sem condições de realizá-la ou que invade a competência de outro Poder, segundo avaliação do ex-juiz eleitoral Marlon Reis, um dos autores da Lei da Ficha Limpa.

Na avaliação do jurista, cabe ao eleitor exercer papel decisivo nesse processo, conhecendo as atribuições de cada cargo e avaliando se aquilo que está sendo oferecido durante a campanha encontra respaldo na realidade institucional.

A observação ganha importância porque a divisão de competências entre União, Estados e municípios, assim como entre Executivo e Legislativo, não é meramente administrativa. Ela integra a própria organização constitucional do Estado brasileiro.

Por isso, antes de considerar uma promessa como compromisso efetivo de governo ou mandato, o eleitor pode fazer uma pergunta simples: o candidato terá autoridade para cumprir aquilo que está prometendo?

Outro sinal que merece atenção é a quantidade excessiva de propostas. Para o cientista político Adriano Oliveira, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), um volume muito elevado de compromissos pode indicar dificuldade de execução. A avaliação é de que campanhas mais responsáveis devem priorizar propostas factíveis, em vez de acumular promessas de difícil concretização.

No fim, a qualidade de uma proposta eleitoral não está apenas naquilo que ela promete entregar, mas também na coerência entre o que se pretende fazer, quem possui competência para fazê-lo e quais condições existem para que a medida saia do discurso e alcance a realidade.

JORNAL NOVA GERAÇÃO
“A VERDADE DOS FATOS”