Durante décadas, a ciência considerou desaparecida uma das linhagens de tartarugas-gigantes das Ilhas Galápagos. A espécie de Floreana, registrada historicamente na ilha que lhe deu nome, deixou de ser encontrada no século XIX. O que parecia ser um capítulo encerrado da história natural do arquipélago, contudo, ganhou uma inesperada reviravolta quando pesquisadores identificaram, em outro ponto de Galápagos, animais que carregavam sua assinatura genética.

A descoberta ocorreu no Vulcão Wolf, situado ao norte da Ilha Isabela. Em uma expedição realizada no ano 2000, pesquisadores encontraram, entre a população local de tartarugas, alguns exemplares cuja conformação da carapaça destoava significativamente daquela observada nos animais nativos da região.

A aparência incomum levou a equipe a apelidá-las de “tartarugas alienígenas”. O nome, naturalmente, fazia referência ao aspecto inesperado daqueles animais em seu ambiente, e não a qualquer origem extraterrestre.

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A explicação veio posteriormente por meio da genética. Amostras coletadas pelos pesquisadores foram analisadas e indicaram que aquelas tartarugas apresentavam relação com a linhagem de Floreana. Estudos posteriores reforçaram a conclusão: animais considerados desaparecidos daquela ilha há cerca de um século e meio haviam deixado descendentes em uma região distante de seu território histórico.

Uma espécie desaparecida que deixou rastros

A questão seguinte era ainda mais intrigante: como uma linhagem dada como extinta em Floreana poderia estar presente no Vulcão Wolf, em Isabela?

Os pesquisadores trabalham com diferentes possibilidades. Uma delas envolve fenômenos naturais, como grandes enxurradas capazes de deslocar animais entre áreas. A hipótese considerada mais provável, entretanto, relaciona o deslocamento à intensa presença humana nas Galápagos durante os séculos XVIII e XIX.

Piratas e, sobretudo, navios baleeiros costumavam capturar grandes quantidades de tartarugas-gigantes para utilizá-las como fonte de alimento durante longas viagens. Como esses animais conseguem permanecer períodos prolongados sem comida ou água, eram considerados particularmente adequados para serem transportados em embarcações.

Nesse contexto, pesquisadores levantam a possibilidade de que alguns exemplares tenham sido abandonados ou perdido-se durante episódios envolvendo embarcações na região do arquipélago. Também existe a hipótese de que tartarugas tenham sido deliberadamente descartadas ao mar ou deixadas em outras ilhas quando navios precisavam reduzir peso.

Não há, contudo, uma comprovação definitiva de qual episódio teria originado a população encontrada no Vulcão Wolf. O que a genética demonstra é que houve deslocamento de material genético da antiga população de Floreana para aquela região.

A genética como chave para o enigma

A descoberta ganhou dimensão ainda maior porque os animais encontrados não eram necessariamente representantes puros da antiga linhagem.

Pesquisadores identificaram tartarugas com diferentes combinações genéticas, algumas apresentando aproximadamente metade de sua composição associada à linhagem de Floreana e a outra metade relacionada às tartarugas nativas do Vulcão Wolf. Essa característica indica que, em algum momento, exemplares das diferentes populações se reproduziram.

Para os cientistas, porém, a presença desses híbridos guarda uma possibilidade extraordinária: a de que ainda existam, no vasto território vulcânico de Isabela, indivíduos que preservem uma parcela mais significativa — ou até integral — da antiga linhagem de Floreana.

Até o momento, uma tartaruga considerada geneticamente pura da população desaparecida não foi localizada. Ainda assim, a existência de indivíduos com forte componente genético de Floreana sustenta a expectativa de que outros exemplares possam estar escondidos nas áreas remotas do vulcão.

Da descoberta à tentativa de reconstrução

A identificação dos animais não ficou restrita ao campo da pesquisa genética. Ela passou a integrar um dos mais ambiciosos esforços de conservação realizados nas Galápagos.

Em um trabalho desenvolvido ao longo de anos, pesquisadores reproduziram em cativeiro tartarugas portadoras da linhagem de Floreana. O objetivo era criar animais capazes de retornar à ilha de origem de seus ancestrais e contribuir para a reconstrução de uma população que desapareceu há gerações.

O processo envolve cuidados rigorosos desde a incubação dos ovos. Após o nascimento, os filhotes permanecem inicialmente em ambientes controlados e, à medida que crescem, passam para espaços preparados para reproduzir condições mais próximas das encontradas na natureza.

Em fevereiro de 2026, parte desse esforço alcançou um momento simbólico: 158 filhotes foram levados para a Ilha Floreana e receberam dispositivos de rastreamento por satélite, permitindo aos pesquisadores acompanhar sua adaptação ao ambiente e identificar áreas potencialmente adequadas para reprodução futura.

As tartarugas libertadas são híbridas, reunindo componentes genéticos da antiga linhagem de Floreana e de populações existentes no entorno do Vulcão Wolf. O projeto, portanto, não representa simplesmente a reintrodução de uma espécie desaparecida, mas uma tentativa científica de recuperar parte de sua herança genética e restabelecer uma população funcional na ilha onde seus ancestrais viveram.

Um retorno construído pela ciência

A trajetória dessas tartarugas reúne, em uma mesma história, exploração, desaparecimento, deslocamento involuntário, genética e conservação.

A população que um dia desapareceu de Floreana pode ter sobrevivido de maneira indireta, dispersa por acontecimentos ocorridos há mais de um século. O que parecia ser uma extinção definitiva revelou-se, ao menos geneticamente, mais complexo.

Agora, a ciência tenta transformar essa descoberta em possibilidade de futuro. O retorno dos animais à ilha não significa que a espécie original tenha sido simplesmente recuperada. Significa, antes, que uma linhagem considerada perdida ainda deixou vestígios suficientes para permitir uma tentativa de reconstrução.

Nas Galápagos, onde a história da evolução ganhou dimensão mundial a partir das observações de Charles Darwin, as tartarugas voltam a ocupar um lugar singular: não apenas como testemunhas de um passado distante, mas como protagonistas de uma experiência contemporânea de restauração da biodiversidade.

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