A chegada de um contingente estimado entre 50 mil e 60 mil migrantes a Ceuta, cidade autônoma espanhola localizada no norte da África, desencadeou uma das maiores crises migratórias já registradas na fronteira entre Espanha e Marrocos. O episódio provocou dezenas de mortes, exigiu o reforço das forças de segurança e voltou a tensionar as relações diplomáticas entre os dois países, enquanto diferentes hipóteses são analisadas para explicar a escalada do fluxo migratório.

Segundo as autoridades espanholas, ao menos 72 corpos foram recuperados no lado espanhol da fronteira. O representante do governo em Ceuta informou que ainda pode haver vítimas em território marroquino. De acordo com os relatos oficiais, parte das mortes ocorreu por afogamento durante a travessia marítima e outra parte foi registrada quando pessoas tentavam escalar o quebra-mar que sustenta a cerca fronteiriça.

O Ministério do Interior da Espanha informou que, até o fim da tarde de sexta-feira (31 de julho), aproximadamente 48,3 mil migrantes haviam retornado ao Marrocos. A maior parte das repatriações ocorreu de forma voluntária, segundo o governo espanhol.

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O chefe do governo de Ceuta, Juan Jesús Vivas, declarou que o número total de pessoas que cruzaram a fronteira nos dois dias anteriores pode ter chegado a 60 mil, quantidade que representa parcela significativa da população local, estimada em cerca de 85 mil habitantes.

Embora tenha afirmado que o processo de retorno avançava de forma satisfatória, Vivas ressaltou que a cidade ainda não havia retomado completamente a normalidade. Horas depois, relatos já apontavam a reabertura do comércio e o restabelecimento gradual das atividades.

Conforme publicou o jornal El País, muitos migrantes decidiram regressar após perceberem as reduzidas chances de alcançar o continente europeu e a falta de estrutura para acolhimento em Ceuta. Em entrevista à agência Associated Press (AP), o marroquino Mohamed Hatri, de 23 anos, afirmou que estabelecimentos comerciais foram fechados, dificultando até mesmo o acesso à alimentação.

Mesmo com o início das repatriações, centenas de pessoas ainda tentaram alcançar Ceuta e Melilla, outro enclave espanhol localizado no continente africano. As tentativas foram contidas por militares espanhóis. Houve registro de lançamento de pedras contra agentes de segurança, que responderam com gás lacrimogêneo.

Enquanto a situação começava a ser controlada, famílias marroquinas passaram a procurar parentes desaparecidos do outro lado da fronteira.

Diante da crise, o governo espanhol reforçou o policiamento na região, enviando militares, mergulhadores, drones e embarcações para ampliar o controle da fronteira. O primeiro-ministro Pedro Sánchez e o ministro do Interior estiveram na passagem fronteiriça de Tarajal para acompanhar as operações.

Embora Ceuta conviva historicamente com a imigração irregular, a dimensão do episódio é considerada excepcional. O caso mais semelhante ocorreu em maio de 2021, quando aproximadamente 10 mil pessoas ingressaram no enclave em apenas dois dias.

Naquele episódio, a tensão diplomática surgiu após a Espanha permitir que Brahim Ghali, líder da Frente Polisário, recebesse tratamento médico em território espanhol. Em resposta, segundo o governo espanhol, Marrocos reduziu a fiscalização na fronteira, medida interpretada como uma retaliação diplomática. Posteriormente, Madri passou a apoiar o plano marroquino para o Saara Ocidental, reduzindo as tensões entre os dois países.

A nova crise também ocorre em meio à expectativa pela votação, no Parlamento espanhol, de um projeto que pretende conceder nacionalidade espanhola a saarauís nascidos quando o Saara Ocidental ainda estava sob administração da Espanha. A proposta é considerada sensível para o governo marroquino por reforçar os vínculos históricos entre a população saaraui e o Estado espanhol.

Outra hipótese discutida por analistas relaciona o episódio à recente aproximação diplomática entre Espanha e Argélia, país que apoia a Frente Polisário. No último dia 20 de julho, Pedro Sánchez realizou visita oficial a Argel, a primeira de um chefe de governo espanhol ao país em quatro anos, com o objetivo declarado de fortalecer a cooperação bilateral.

O governo marroquino não comentou oficialmente essas interpretações. Segundo a agência Europa Press, integrantes do governo em Rabat atribuíram a mobilização às organizações criminosas responsáveis pelo tráfico de migrantes e afirmaram que a cooperação com a Espanha no controle das fronteiras permanece "exemplar".

O jornalista espanhol Ignacio Cembrero, especialista em migração no Norte da África, afirmou à AFP que as forças de segurança marroquinas aparentavam não ter impedido a aproximação dos migrantes da fronteira. Para ele, a crise pode representar uma oportunidade de pressão política sobre a Espanha em relação a Ceuta e Melilla.

Avaliação semelhante foi apresentada pelo pesquisador Matteo Villa, do Instituto Italiano de Estudos Políticos Internacionais, que relacionou o aumento do fluxo migratório ao descontentamento de Marrocos com a questão saaraui e com a reaproximação entre Madri e Argel.

Outra linha de análise envolve uma decisão recente do Tribunal Supremo da Espanha, que confirmou, no início de julho, que a legislação do país não permite a devolução imediata de migrantes interceptados no mar.

Segundo Pedro Sánchez, organizações de tráfico humano teriam explorado interpretações equivocadas dessa decisão para incentivar novas travessias. O presidente do Observatório do Norte de Direitos Humanos, Mohamed Benaissa, também avaliou que a percepção de uma menor possibilidade de retorno imediato por via marítima gerou um chamado "efeito chamada", impulsionado ainda por mensagens compartilhadas nas redes sociais.

Para Ignacio Cembrero, entretanto, embora a decisão judicial possa ter contribuído para o aumento das travessias, ela não explica, isoladamente, a dimensão da mobilização registrada.

Diante da crise, Pedro Sánchez afirmou que o governo espanhol está disposto a estudar alterações na Lei de Estrangeiros para tornar mais ágeis os procedimentos de repatriação.

O episódio também provocou repercussões políticas na União Europeia. O governo espanhol convocou a embaixadora da Itália após integrantes da coalizão liderada pela primeira-ministra Giorgia Meloni defenderem a suspensão da Espanha do Espaço Schengen, apesar de Ceuta não integrar essa área de livre circulação.

Posteriormente, a Itália anunciou a suspensão do acordo de Schengen com a Espanha, medida interpretada por críticos como predominantemente simbólica.

Na Alemanha, o chanceler Friedrich Merz declarou esperar que Madri restabeleça rapidamente o controle da situação e defendeu que Marrocos readmita imediatamente os migrantes em situação irregular.

Localizada na costa norte do Mediterrâneo, Ceuta, ao lado de Melilla, constitui as únicas fronteiras terrestres entre a União Europeia e o continente africano. Pela posição estratégica, o território se tornou uma das principais portas de entrada para migrantes que tentam alcançar a Europa.

As travessias costumam partir da cidade marroquina de Fnideq ou da região de Belyounech, onde a distância até Ceuta é menor. Apesar da visibilidade dessas rotas, a maior parte da imigração irregular para a Espanha continua ocorrendo por via marítima em direção às Ilhas Canárias e, em menor escala, às Ilhas Baleares.

A crise também foi acompanhada por uma onda de desinformação nas redes sociais. Entre as publicações desmentidas estavam mensagens que afirmavam que apenas homens em idade militar haviam cruzado a fronteira. Imagens e registros jornalísticos, contudo, mostraram a presença de mulheres, famílias e crianças entre os migrantes.

Outra informação falsa atribuía aos migrantes ataques contra viaturas da polícia espanhola. Conforme a apuração citada na fonte, o vídeo utilizado nessas publicações registrava, na realidade, confrontos envolvendo forças de segurança marroquinas em território de Marrocos, e não em solo espanhol.

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