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Uma pesquisa científica identificou alterações nos otólitos de 23 dos 38 peixes de cangoá (Stellifer naso) analisados após a coleta de exemplares na região da foz do Rio São Mateus, no norte do Espírito Santo. O resultado corresponde a 60,5% da amostra examinada.
Os animais foram coletados em maio de 2022, entre os municípios de São Mateus e Conceição da Barra. O estudo foi publicado na revista científica Ocean and Coastal Research e, segundo os pesquisadores, a proporção de anomalias encontrada é a maior já registrada em peixes costeiros no Brasil.
A pesquisa foi conduzida por Jonas Andrade-Santos, Rafael Menezes e Marcelo R. Britto, vinculados ao Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e à Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).
O objeto central da análise foram os chamados otólitos, estruturas localizadas no ouvido interno dos peixes. Conforme os pesquisadores, essas estruturas podem ter sua forma e composição química influenciadas pelas condições ambientais e pelo estado fisiológico dos animais. Alterações nesses elementos, portanto, podem funcionar como indicativos de mudanças ambientais ou de situações de estresse.
Para realizar a pesquisa, os cientistas analisaram os otólitos sagitta dos 38 exemplares. As estruturas foram fotografadas em suas faces interna e externa e tiveram os contornos examinados por meio de técnicas de análise morfológica.
As anomalias encontradas apresentaram diferentes formatos, níveis de complexidade e volumes. A maior concentração ocorreu na região ventral dos otólitos e nas margens do sulcus acusticus.
Entre as alterações descritas no estudo está uma projeção semelhante a um dedo. Também foi identificada deformação na margem do sulcus acusticus. Os pesquisadores observaram ainda diferenças no formato da chamada espinha predorsal. Na maior parte dos exemplares, essa estrutura apresentava formato pontiagudo, enquanto em dois peixes ela era arredondada.
Relação com o desastre do Rio Doce
Os autores reconhecem que as alterações podem estar associadas a diferentes condições ambientais. Entre os fatores considerados estão variações de temperatura e o estresse relacionado à salinidade.
Apesar disso, o estudo aponta o desastre do Rio Doce como provável fator principal relacionado às mudanças ambientais observadas.
O rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, Minas Gerais, ocorreu em novembro de 2015. A estrutura, da Samarco, liberou milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração, que percorreram o Rio Doce até alcançar o Oceano Atlântico, provocando impactos ambientais em Minas Gerais e no Espírito Santo.
De acordo com os pesquisadores, a área onde os peixes foram coletados não apresentou processos oceânicos marcantes, como ressurgências, que já foram relacionados a anomalias semelhantes em outros estudos. Com base nessa avaliação, os autores consideram o rompimento da barragem como o principal evento ambiental capaz de explicar as alterações observadas.
O estudo também faz referência a pesquisas anteriores que identificaram bioacumulação de metais pesados em diferentes espécies de peixes e em otólitos de bagres na região atingida pelos rejeitos.
Outro aspecto considerado pelos pesquisadores é o comportamento do próprio cangoá. A espécie vive em águas estuarinas e próxima a fundos de sedimentos. Segundo os autores, essa característica pode aumentar a exposição desses peixes à bioacumulação e a alterações morfológicas.
Estudo aponta necessidade de investigação complementar
Apesar da associação apontada pelos pesquisadores, a pesquisa não encerra a investigação sobre a origem das anomalias. Os autores ressaltam que são necessários exames complementares para esclarecer quais fatores estão efetivamente relacionados às alterações identificadas.
Entre os procedimentos sugeridos estão análises de radiodensidade em 3D e estudos sobre a composição química dos otólitos. Segundo os pesquisadores, essas técnicas podem ajudar a identificar os fatores envolvidos nas alterações.
O intervalo de tempo entre o desastre e a coleta dos exemplares também foi considerado no estudo. O rompimento da barragem ocorreu em novembro de 2015, enquanto os peixes foram coletados em maio de 2022, quase sete anos depois.
Na avaliação dos autores, esse período não elimina a possibilidade de relação entre os rejeitos e as alterações encontradas. O estudo cita pesquisas que indicam que metais pesados transportados pelo Rio Doce podem produzir efeitos prolongados no ambiente.
Os pesquisadores também levantam outra possibilidade: as alterações podem resultar da combinação entre os impactos associados ao desastre do Rio Doce e fatores genéticos ainda não identificados. Essa hipótese, segundo os autores, também necessita de investigação.
Dessa forma, o estudo registra uma elevada frequência de anomalias nos otólitos dos exemplares analisados e aponta uma possível relação com as alterações ambientais associadas ao desastre do Rio Doce, mas ressalta a necessidade de novas análises para esclarecer os fatores envolvidos.
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