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O crescimento do turismo internacional no México tem sido acompanhado por um aumento da preocupação com o tráfico de pessoas, crime que continua afetando principalmente mulheres e crianças. Entre janeiro e maio deste ano, o país recebeu mais de 20 milhões de visitantes internacionais, o maior número já registrado para o período, enquanto organizações especializadas alertam para o fortalecimento das redes de exploração humana.
De acordo com o Global Organized Crime Index 2025, elaborado pela organização suíça Global Initiative, o tráfico de pessoas figura entre as atividades mais lucrativas do crime organizado no país. O levantamento aponta que grupos criminosos, entre eles o Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG) e o Cartel de Sinaloa, estão cada vez mais envolvidos nesse tipo de crime.
Dados oficiais mostram que, em apenas um ano, os registros de casos comunicados às autoridades mexicanas cresceram 45%. Especialistas, contudo, afirmam que a dimensão do problema é significativamente maior, já que a maioria das ocorrências permanece sem denúncia.
Segundo estimativa do Consejo Ciudadano para la Seguridad y Justicia, organização da sociedade civil dedicada ao enfrentamento da violência, sete em cada dez sobreviventes do tráfico de pessoas no México são mulheres, e mais da metade delas é menor de idade.
Uma dessas sobreviventes é Mixi Cruz, de 33 anos. Ela relata que, após perder a mãe aos 13 anos, procurou abrigo na casa da meia-irmã, onde passou a ser submetida a trabalho doméstico forçado e, posteriormente, à exploração sexual.
Em depoimento à DW, Cruz afirma que levou tempo para compreender que havia sido vítima de um sistema de exploração. Segundo ela, muitas mulheres não reconhecem imediatamente a violência sofrida porque cresceram em ambientes onde abusos e manipulação foram naturalizados.
A diretora do Conselho Cidadão, Gabriela Gonzalez Garcia, explica que o tráfico de pessoas utiliza mecanismos de manipulação emocional para isolar as vítimas e impedir que elas construam redes de apoio. A instituição administra a única central telefônica especializada em atendimento às vítimas disponível 24 horas por dia no México, além de oferecer suporte por meio de um serviço de chat.
Desde sua criação, em 2007, a organização registrou aproximadamente 26 mil atendimentos relacionados ao tráfico de pessoas. Ainda assim, Gabriela Gonzalez Garcia estima que 98% dos casos jamais são reportados, o que evidencia a elevada subnotificação desse tipo de crime.
Outra frente de combate é desenvolvida pela organização El Pozo de Vida, que realiza abordagens semanais em zonas de prostituição da Cidade do México. A coordenadora do projeto, identificada pelo nome fictício Ana Torres, relata que os voluntários oferecem orientação e canais de acolhimento às mulheres encontradas nesses locais.
Segundo Torres, embora a expectativa de aumento da demanda por serviços sexuais durante a realização da Copa do Mundo, sediada por México, Canadá e Estados Unidos, não tenha se concretizado, houve crescimento no número de turistas estrangeiros. Para ela, a presença de visitantes de diferentes nacionalidades criou novos desafios, especialmente devido às barreiras linguísticas, que podem ampliar a vulnerabilidade das mulheres exploradas.
Em razão desse cenário, o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), em parceria com organizações mexicanas, promoveu campanhas de conscientização voltadas ao setor turístico. As ações envolveram uma plataforma de transporte por aplicativo e uma empresa de hospedagem por temporada, que participaram de iniciativas de capacitação para identificar e prevenir situações de tráfico de pessoas.
Apesar dessas medidas, Mixi Cruz considera que os esforços ainda não são suficientes para reduzir a exploração. Segundo ela, em diversas áreas turísticas é comum que existam informações sobre locais onde mulheres e crianças podem ser encontradas para exploração sexual, o que, em sua avaliação, favorece a atuação das organizações criminosas.
Durante uma das ações realizadas pelo El Pozo de Vida, uma mulher relatou preocupação com uma jovem colombiana que teria sido atraída ao México mediante falsas promessas. Conforme o relato, mulheres estrangeiras estariam sendo obrigadas a trabalhar entre 12 e 15 horas por dia, permanecendo sob vigilância constante e com restrições de liberdade.
Os voluntários forneceram à denunciante os contatos da organização para que a jovem pudesse buscar ajuda. Após a abordagem, Ana Torres afirmou ter percebido uma vigilância mais intensa por parte de pessoas supostamente ligadas aos exploradores, situação que aumentou a preocupação da equipe.
Mixi Cruz conseguiu deixar a situação de exploração aos 16 anos. Atualmente, integra uma rede de sobreviventes que promove palestras em escolas e universidades com o objetivo de conscientizar adolescentes e jovens sobre os riscos do tráfico de pessoas.
De acordo com seu relato, a meia-irmã foi posteriormente condenada a quatro anos de prisão, enquanto o marido dela recebeu pena de cinco anos por outros crimes graves, e não especificamente pelo crime de tráfico de pessoas. Conforme especialistas ouvidos pela reportagem original, condenações relacionadas a esse tipo de delito ainda representam uma exceção diante da dimensão estimada do problema.
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