A manifestação liderada por Flávio Bolsonaro (PL) na Avenida Paulista, em São Paulo, neste 7 de Setembro, confirmou que o bolsonarismo continua dispondo de uma base eleitoral capaz de ocupar as ruas e produzir visibilidade política, mas também ofereceu um dado que merece atenção na campanha presidencial: a mobilização ficou distante dos maiores atos realizados pelo movimento em anos anteriores.

Estimativa do Monitor do Debate Político da USP/Cebrap, em parceria com a organização More in Common, apontou a presença de aproximadamente 28,5 mil pessoas no momento de maior concentração. O número ficou abaixo das manifestações realizadas na mesma avenida em 2024 e 2025.

O resultado não representa ausência de capacidade de mobilização. Ao contrário, a presença de milhares de apoiadores em uma manifestação de campanha demonstra que o campo político associado à família Bolsonaro permanece organizado e eleitoralmente relevante. O dado, porém, indica que a capacidade de convocação popular não alcançou, neste momento, os níveis observados em alguns dos episódios mais expressivos da trajetória recente do bolsonarismo.

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Uma campanha que busca novo impulso

O ato ocorreu em uma etapa particularmente importante da campanha de Flávio Bolsonaro à Presidência da República. Com a aproximação do primeiro turno, a manifestação foi utilizada como espaço para consolidar sua candidatura e reforçar a identidade política do eleitorado de direita.

O discurso adotado pelo candidato concentrou-se em dois adversários recorrentes do bolsonarismo: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.

Flávio associou politicamente Lula a Moraes e afirmou que, caso seja eleito presidente, pretende indicar cinco ministros para o Supremo. Também manifestou apoio ao ministro André Mendonça, cuja atuação ganhou destaque entre setores da direita em meio às recentes controvérsias envolvendo integrantes da Corte.

O tom do evento manteve, portanto, elementos centrais da identidade política construída pelo bolsonarismo: oposição ao PT, críticas ao Supremo e defesa de uma agenda de maior enfrentamento ao que seus apoiadores consideram excessos do Judiciário.

Menos gente, mas uma base preservada

A dimensão do público, contudo, introduz uma variável importante na leitura eleitoral.

Em 2024, manifestações bolsonaristas na Avenida Paulista alcançaram aproximadamente 45,4 mil pessoas; em 2025, o número chegou a cerca de 42,2 mil, segundo levantamentos citados nas análises sobre os atos. A mobilização deste ano, portanto, apresentou redução expressiva em relação aos dois anos anteriores.

O fenômeno não deve ser interpretado isoladamente como sinal de colapso político. Mobilizações de rua são influenciadas por circunstâncias específicas — data, clima, estrutura de convocação, conjuntura eleitoral e capacidade de organização dos partidos e movimentos.

Ainda assim, a diferença numérica é relevante porque manifestações públicas funcionam, em períodos eleitorais, como uma espécie de termômetro da capacidade de uma candidatura de transformar identificação política em participação presencial.

Nesse aspecto, o ato de 7 de Setembro produziu um resultado ambíguo: preservou a demonstração de existência de uma base bolsonarista organizada, mas não reproduziu a escala de mobilização verificada em momentos anteriores.

O desafio de transformar militância em votos

Para Flávio Bolsonaro, a questão central passa agora pela conversão dessa base política em votos.

A capacidade de reunir apoiadores é importante para uma campanha presidencial, sobretudo em uma eleição marcada por forte polarização. Não é, porém, suficiente para determinar o resultado das urnas.

O desafio consiste em ampliar a influência para além do eleitorado já identificado com o bolsonarismo, alcançar segmentos menos mobilizados e transformar a força de uma militância organizada em crescimento efetivo nas intenções de voto.

Esse movimento exige uma combinação diferente daquela observada nos grandes atos que marcaram a ascensão de Jair Bolsonaro a partir de 2018. A política eleitoral brasileira mudou desde então, e o ambiente atual apresenta uma disputa mais consolidada, na qual diferentes candidaturas tentam ocupar o espaço existente entre o lulismo, o bolsonarismo e setores que buscam alternativas aos dois polos.

A direita continua competitiva

Apesar da redução do público em relação a manifestações anteriores, o ato da Paulista não autoriza concluir que o bolsonarismo tenha perdido relevância eleitoral.

A presença de milhares de apoiadores, a capacidade de organização partidária e a permanência de uma identidade política fortemente estruturada mostram que o movimento continua ocupando parcela significativa do eleitorado.

O que os números sugerem é algo mais específico: a força política permanece, mas a capacidade de produzir mobilizações excepcionais parece menor do que em momentos de maior efervescência.

A diferença é importante. Uma coisa é a sobrevivência de uma corrente política; outra, bastante distinta, é sua capacidade de provocar uma ruptura imediata no cenário eleitoral.

Na Avenida Paulista, Flávio Bolsonaro conseguiu demonstrar que o bolsonarismo continua presente, organizado e capaz de levar milhares de pessoas às ruas. O tamanho da manifestação, entretanto, ficou aquém das marcas registradas em anos anteriores — um dado que a campanha terá de considerar na tentativa de ampliar sua competitividade até o primeiro turno.

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