A sucessão de acontecimentos envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF) passou a ocupar espaço relevante na estratégia eleitoral do PT, levando aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a discutir uma mudança de tom na campanha à reeleição. A preocupação, segundo integrantes da legenda e da equipe política, é evitar que o chefe do Executivo permaneça excessivamente vinculado às controvérsias que cercam a Corte ao mesmo tempo em que enfrenta o avanço de Flávio Bolsonaro no cenário eleitoral.

A questão esteve no centro de uma reunião da executiva nacional do PT e de coordenadores da campanha realizada na quinta-feira (10). A avaliação predominante foi de que a campanha precisa recuperar iniciativa política e construir uma posição capaz de abordar a crise institucional sem permitir que a disputa eleitoral seja absorvida pelo noticiário sobre o Supremo.

Nesse contexto, a defesa de maior transparência nas investigações passou a ser considerada pelos aliados de Lula uma das alternativas mais adequadas para o presidente se manifestar sobre o assunto. A estratégia permite que ele sustente uma posição favorável à divulgação dos elementos das apurações sem necessariamente assumir uma defesa irrestrita de qualquer dos envolvidos na controvérsia. O próprio Lula voltou a sustentar essa linha em entrevista ao SBT. Ao abordar as suspeitas que envolvem o ministro Alexandre de Moraes, afirmou que eventuais responsabilidades devem ser apuradas e que, se houver culpa, deverá haver consequência. A declaração foi interpretada no ambiente político como um possível movimento para estabelecer maior distância entre o presidente e o ministro.

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Na mesma entrevista, Lula defendeu que integrantes da Suprema Corte mantenham padrões elevados de conduta e afirmou que existe uma incompatibilidade entre a função de ministro do STF e a busca por enriquecimento. Segundo o presidente, quem optar pela magistratura na Corte deve atuar de acordo com os princípios e responsabilidades inerentes ao cargo.

“Se o Alexandre de Moraes é culpado, ele tem que pagar”, afirmou Lula.

O presidente também declarou que integrantes da Suprema Corte devem constituir referência institucional e atuar como guardiões da democracia e da Constituição.

A disputa pelo discurso

A estratégia, entretanto, envolve uma dificuldade adicional. Ao defender transparência nos autos relacionados ao caso Master e criticar o que considera vazamentos seletivos, Lula pode ser questionado por adversários sobre a aplicação do mesmo princípio às investigações envolvendo supostas irregularidades no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

Nesse segundo caso, aparece entre os investigados Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente, mencionado na apuração por suspeitas de tráfico de influência. A situação acrescenta uma dimensão política ao debate sobre o grau de publicidade que deve ser conferido às investigações.

Dentro do PT, a percepção manifestada na reunião da executiva foi de que Lula enfrenta um cenário eleitoral que exige reação mais assertiva. Petistas avaliaram como real a possibilidade de uma disputa mais acirrada com Flávio Bolsonaro e cobraram do comando partidário uma mudança de postura na campanha.

Entre as medidas discutidas está uma ofensiva política contra André Mendonça, ministro do STF, a quem integrantes do partido atribuem atuação de caráter político. Outra frente defendida é a adoção de mandato com duração determinada para integrantes dos tribunais superiores — proposta que Lula também mencionou na entrevista ao SBT.

O presidente do PT, Edinho Silva, reconheceu a necessidade de ajustes na condução da campanha. Segundo ele, a mudança do cenário exige que a estratégia eleitoral acompanhe a nova realidade.

A avaliação também alcançou a mobilização da militância. Alberto Cantalice, presidente da Fundação Perseu Abramo, afirmou que a crise envolvendo o STF produziu impacto negativo para a candidatura de Lula na última semana, mas defendeu que o partido mantenha a mobilização política.

O episódio evidencia uma equação delicada para o presidente: defender a estabilidade e a credibilidade das instituições sem permitir que a crise envolvendo a Suprema Corte determine os rumos de sua campanha. Para o PT, o desafio imediato é recuperar espaço no debate eleitoral e fazer com que a disputa de 2026 volte a se concentrar nos candidatos e em seus projetos políticos.

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